Estudando Oswáld de Andrade, nova exposição do Museu da Língua Portuguesa, fiquei com vontade de estudar as vanguardas artísticas. Nas outras linguagens da arte como as artes visuais e a literatura, esse assunto é muito pensado, discutido, posto em questão. Vale a pena ver Meia Noite em Paris do Woody Allen. Mas e a música? Fiquei impressionada quando descobri que Debussy inaugurou também uma forma de repensar o aspecto sonoro na modernidade. Para mim, era apenas o Schönberg, com seu dodecafonismo, seu novo tratado de Harmonia.
Na minha cabeça, Scöenberg dialogava muito bem com o contexto da época, mas não sabia direito como Debussy entra nessa jogada. Fui me interessar por esse assunto, quando vi a frase do Oswáld (que aparecerá na exposição): Eu menti!!
"Eu menti!" é uma frase proclamada por Oswáld ao Mário de Andrade. Sua cara de pau, foi tanta, que um dia, não me lembro o contexto que estavam, Oswáld de Andrade parou toda a discussão para dizer que o Mário de Andrade (que entende de música) disse que Heitor Villa Lobos era bem melhor que Debussy.
Depois foram perguntar ao Mário se ele disse isso e evidentemente que Mário negou, mas foi perguntar ao Oswáld o porquê ele falou isso. Sabe o que Oswáld respondeu? "Eu menti".
É muito petulante esse Oswáld.
Mas eu não vim aqui falar dele, mesmo porque eu nada tenho a dizer de sua obra, só dizer que não gosto! Vim falar de Debussy baseada em um Podcast da OSESP que ouvi essa tarde sobre Debussy e o nascimento da modernidade musical, feito por Vladimir Safatle:
Segundo Satatle, se aceitarmos a divisão musical modernista seria assim: radicalização das estratégias seriais por Schönberg (mais tarde veremos em compositores da segunda metade do século XX, como Boulez e Stockhausen, entre outros) e a estilização da paródia e da ironia (em compositores como Stravinsky, John Adams e Thomas Adés) e veremos que Debussy aparece em terceira via.
"Se quisermos entender a verdadeira contribuição de Debussy para a modernidade musical, devemos estar atentos à maneira como ele reconstrói a noção de tempo. Noção fundamental, já que a música é, de todas as artes, aquela que mais claramente impõe através da sua forma, um modo de organização da experiência da temporalidade. Ela é, no fundo, um modo de decisão sobre como passa o tempo."
Música na modernidade era formas sonoras em movimento (também não tinha entendido essa frase, mas vai ficar clara adiante). O movimento = passagem, transformação, continuidade, INCOMPLETUDE. Ou seja, algo que não se move.
O sistema tonal é uma forma de organizar o movimento. Através do sistema tonal, aprendemos a esperar uma resposta quando ouvimos uma frase, a esperar uma distensão quando ouvimos uma tensão, um consequente quando ouvimos um ascendente. Isso demonstra como modos de sucessão e continuidade se naturalizam no desenvolvimento de um motivo musical.
Debussy libera o tempo musical de sua submissão à narrativa tonal. Tem dupla temporalidade. Duplicidade nascida da radicalização da tensão, presente na obra dele. Ou seja, você espera algo da música, mas ela não resolve. Ou seja, tem uma temporalidade do sistema tonal, mas ele desarticula as expectativas do ouvinte, ele usa a liberdade das regras de harmonia.
"Pois não há propriamente em Debussy o abandono completo da tonalidade (ao contrário de Schöenberg, por exemplo), mas uma 'indiferença' sintática quanto à imposição de suas regras"
Prelúdio Para a Tarde de um Fauno, 1894
http://www.youtube.com/watch?v=FrBGpEBGLyU&feature=related (aqui está a musica e um vídeo lindo)
- A peça impressionou por seu modelo sem resoluçao;
- A flauta do Fauno instaurou uma nova respiração na arte musical;
- Poema de Mallarmé, serviu de inspiração para a música de Debussy:
Stéphane Mallarmé
A tarde de um fauno
(Écloga 1865-1875)
O fauno:
Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.
Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos –DIZEI
"que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre."
A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!
Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!
Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
-ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar.
Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco... além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume."
Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
"Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só - e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia."
Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!
Ó dura pena...
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!
Par, adeus: Quero ver como sua sombra se faz.
A tarde de um fauno
(Écloga 1865-1875)
O fauno:
Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.
Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.
Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos –DIZEI
"que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre."
A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!
Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!
Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
-ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar.
Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco... além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume."
Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
"Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só - e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia."
Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!
Ó dura pena...
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!
Par, adeus: Quero ver como sua sombra se faz.
(fonte: http://www.letras.ufmg.br/lourenco/banco/FR02.html )
- No poema há apenas o tempo estático do desejo do fauno pelas ninfas: "Essas ninfas, eu as quero perpetuar".
- Da mesma forma Debussy pensou numa música, de desenvolvimento sem resolução, onde a flauta do Fauno ressoa abrindo um tempo de repetição (como o próprio tempo do desejo), que permite a orquestra operar uma variação incessante dos modos de acompanhamento.
- Debussy usa "harmonia não funcional". Harmonia é uma maneira de organizar o movimento na música. Mas Debussy usa a harmonia de uma forma tal que os polos de tensão e distensão se quebram, dando a impressão da música não se resolver, de não andar...
- Joux e La Mer também: ao ouvir tais peças seus ouvintes contemporâneos (de Debussy apenas?) sentem-se desnorteados por não saber o que esperar, o que rememorar, para que direção caminhar.
Em Debussy notamos elementos visuais na música. Na verdade, eu identifico isso em muitos compositores de diversos períodos. O exemplo que Vladimir Safatle dá é a peça "Passos sobre a neve", segundo ele podemos visualizar uma paisagem triste e glacial.
“Há algumas décadas, Boulez afirmava que, na verdade, o modernismo estético tinha sido inventado na França por Mallarmé, Cézanne e Debussy. Para além da querela geográfica bizantina, há um conteúdo de verdade nessa proposição. Ela nos lembra como conhecemos, ao menos, três formas de esgotar algo: fornecendo os princípios gerais de uma nova ordem (Schönberg), operando um retorno paradoxal à origem, onde a ironia e a paródia serão dispositivos centrais (Stravinsky), e conservando a linguagem atual de forma tal que ela confessará sua impossibilidade de desempenhar suas antigas funções e se abrirá para a problematização de seus elementos fundamentais. Essa foi a via aberta por Debussy.”