segunda-feira, 5 de março de 2012

Homens em busca de nova identidade

Homens em busca de nova identidade
Grupos pelos direitos masculinos cobram equilíbrio
no divórcio e mais tempo para a paternidade

Pedro Doria
Entre 1949, quando saiu o primeiro livro de teoria feminista, O Segundo Sexo, e hoje, muito mudou. “Não foram as mulheres que puseram os valores femininos em oposição aos masculinos”, escreveu na época Simone de Beauvoir. “Foram os homens que o fizeram para manter suas prerrogativas.” O que era uma idéia revolucionária, a da opressão masculina, se espalhou e se firmou. Mas, se a idéia de mulher mudou, assim como as posições que ocupam, pouco se discutiu o homem.

Os problemas masculinos não têm nada de vagos. É freqüente em grandes empresas que, quando a mulher é funcionária, seu marido não tenha direito a seguro saúde. Na paternidade, em muitos países, eles não podem ficar em casa com o recém-nascido; quando podem, é por quase nada de tempo. No divórcio, quem (quase sempre) se vê afastado dos filhos é o pai. Nas guerras - são umas dez por década -, são eles que vão para o front. Na violência urbana, homens não são apenas os causadores, são também as vítimas. Por conta da dupla jornada, as mulheres ganharam o direito de se aposentar mais cedo. Mas são os homens que morrem antes. Como se acidentam no serviço muito mais que mulheres.

Em alguns países, o debate sobre direitos do homem - com minúsculo, homem enquanto gênero - é recente, mas está avançando. É o caso, nas Américas, do Canadá; na Europa, principalmente dos países nórdicos. Na Inglaterra, um grupo de pais conseguiu atrair a atenção para seus problemas, um escalando o Palácio de Buckingham vestido de Batman, outro, a Torre de Londres, como Homem-Aranha. A reforma da legislação britânica em curso busca fazer com que, nos casos de separação, os filhos fiquem em proporções de tempo tão iguais quanto possível com pai e com mãe. Não é que a mãe seja vista como menos importante do que já foi. Só que o pai também é.

Na América Latina tudo é mais difícil - culpa da latinidade, dizem os estudiosos. “Não discutimos homens”, lamenta o psicólogo Sócrates Nolasco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A reflexão mais sistematizada vem timidamente.” Para ele, quando há discussão, ela é filtrada pela ótica feminista. Quase sempre.

As mudanças são reais, mas recentes. Que havia um espírito novo no ar já se percebia, embora de forma muito incipiente, quando A Mística Feminina, de Betty Friedan, chegou às livrarias americanas, em 1963. Bem escrito, fluente, claro - preciso. Friedan escrevia para mulheres de classe média que, à noite, louça lavada, filhos dormindo, marido ao jornal, buscavam aflitas calar a dúvida que as perturbava: “A vida é só isto?” Não era - e, para muitas, deixou de ser.

“Mas a transformação que queriam é esta?” - Nolasco é quem pergunta. Condoleezza Rice é secretária de Estado dos EUA, Margaret Thatcher foi premiê britânica, há executivas espalhando-se pelas empresas. Se o mundo mudou ao aceitá-las com mais freqüência, elas não mudaram o mundo. “As regras continuam as mesmas, a agressividade da vida não mudou, nada ficou mais suave”, teoriza Nolasco, para quem a promessa de que a maior participação de mulheres faça diferença na dureza cotidiana permanece, afinal, promessa.

Com o fortalecimento do feminismo, outros movimentos em defesa de minorias cresceram: de negros, de gays. É um mundo de ONGs. “O Estado se desincumbiu de levantar as questões do desequilíbrio”, observa o professor. “E a sociedade civil não tomou a questão dos homens. Ser homem, branco e heterossexual, hoje, é demérito, é ser minoria.” Em 63, Friedan observava que menos de um terço das vagas universitárias eram ocupadas por mulheres. Hoje, elas são maioria. São mais bem educadas - têm, no Brasil, em média, ano e meio mais de ensino formal que os homens. O menino, a família o põe para trabalhar mais cedo.

Simone de Beauvoir sugeria que a mulher não nasce mulher - ela é feita mulher de acordo com pressões externas, culturais. “O abismo que separa o rapaz adolescente da moça foi aumentado deliberadamente desde sua mais tenra infância; as mulheres crescem para que sejam aquilo que fizeram delas.” Não é que estivesse errada. A pesquisa do antropólogo americano David Gilmore, da Universidade Estadual de Nova York, confirma em campo o que, para Beauvoir, vinha de observação. Só que confirma o oposto também, citando o escritor Norman Mailer: “Ninguém nasce homem; hombridade se conquista.”

Em quase todas as culturas, desde muito pequenos, os meninos são instados a “virar homens”. A agressividade é cultivada por pais e mães, um reflexo natural para defender de bicho a tribo, para arar a terra, para no bom desempenho conquistar a moça bonita. Uma marca cultural profunda, mas não para oprimir o sexo oposto. É agressividade que nasce, bem pelo contrário, do sacrifício em defesa da família. Estão, homem e mulher, juntos na mesma espécie. E, em lugares onde não há ameaças freqüentes, coisa rara no planeta, o menino não ouve desde pequeno que tem de ser homem. É o caso do Taiti.

“É claro que o homem perdeu com o movimento feminista.” Quem afirma é Fernando Seffner, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um dos poucos que, como Nolasco, estudam o lugar do homem. “Onde antes ele concorria com outros seis sujeitos por um emprego, hoje ele encontra mais dez mulheres na disputa.” Mas as mulheres também perderam. Territórios que há algumas décadas eram iminentemente masculinos já não são mais. Elas fumam como não fumavam - então passaram a ter câncer de pulmão. Trabalham em escritórios, agüentam pressão pesada, convivem com stress: aumenta o número de infartos. Presentes em novos espaços, estão morrendo mais pela violência das cidades.

“O homem que perde é principalmente o machista, aquele que tem dificuldade de lidar com esta negociação com as mulheres.” Para o professor gaúcho, este é o que bate, o responsável por mais de 80% dos casos de violência doméstica. Seu perfil cada vez menos é pobre. Está espalhado por todas as faixas de renda. Homem também é surrado em casa. Mas, assim como a mulher não prestava queixa antes de ter sua própria delegacia, marido não costuma avisar ao escrivão que apanhou. “Não gosto de chamar de crise da masculinidade”, diz Seffner. “Porque, sabe, o que a gente tem aqui é uma crise nas relações de gênero. Alguns homens vivem isso como uma crise pessoal, não é.” Que os homens estavam sendo alienados da discussão era o que sugeria Betty Friedan, nos anos 1980.

“Você vê na França, hoje: há uma guerra aberta” - é Nolasco quem diz. “O movimento de homens está dizendo para as feministas ‘vocês querem ferrar com a gente’. Se continuar o discurso do opressor, se para discutir o homem continuarmos sempre vendo pelo feminismo, não haverá avanço. Ficou uma coisa de questões pequenas, o movimento não tem mais aquele vigor das sufragistas de 80 anos atrás. Precisamos inaugurar uma nova discussão, não é quem oprime quem. Temos que reinventar a maneira de lidarmos com poder e com trabalho, é isso que oprime. Nisso, as mulheres, quando chegaram ao poder, não mexeram.”