domingo, 13 de novembro de 2011

Os animais haviam partido

http://www.youtube.com/watch?v=1DJaPxJKhYU



Acordei e, pela primeira vez
Os animais tinham ido embora
Deixou essa casa vazia agora
Não tenho certeza se é o meu lugar
Ontem você me pediu
Para te escrever uma música agradável
Vou fazer o meu melhor agora
Mas você se foi por tanto tempo

A janela está aberta agora
E o inverno se estabelece
A gente chama isso de Natal
Quando as propagandas começam
Eu amo sua depressão
E amo sua dupla personalidade
Eu amo quase tudo
O que você tem a oferecer

Oh, eu sei é que eu te deixei
Em lugares de desespero
Oh, eu sei que te amo
Então, por favor, jogue suas tranças pra baixo

À noite eu viajo sem você
E espero não acordar
Porque acordar sem você
É como beber de uma xícara vazia

Acordei e, pela primeira vez,
Os animais tinham ido embora
Nossos relógios estão "tique-taqueando"
Então antes de nosso tempo acabar
Nós poderíamos arranjar uma casa e algumas caixas na grama
Nós poderíamos fazer bebês e músicas acidentais

Eu sei que fui um mentiroso
E sei que fui um tolo
Espero que não tenhamos terminado
Mas estou feliz de termos quebrado as regras
Minha cova está profunda agora
Mas sua luz ainda está brilhando
Eu cubro meus olhos
Ainda tudo o que eu vejo é você

Oh, eu sei é que eu te deixei
Em lugares de desespero
Oh, eu sei que te amo
Então, por favor, jogue suas tranças pra baixo

À noite eu viajo sem você
E espero não acordar
Pois acordar sem você
É como beber de uma xícara vazia

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Educadores de Museus

As pessoas que trabalham no setor educativo de museus são EDUCADORES.
Alguns termos me irrita profundamente como hoje vou fazer MONITORIA. Ou alguém que me pergunta "você é o MONITOR?". Quer me deixar com raiva nas veias e sangue escoando pelo meu ventre é dizer: "Gente, presta atenção na GUIA".

Como todos esses termos existem e eu fico demasiadamente incomodada quando as pessoas confundem, resolvi esclarecer, partindo de uma texto:

Educação em Museus: termos que revelam preconceitos. Ana Mae Barbosa 

EDUCADORES: Geralmente são formados em Universidades nos cursos de História, de Arte, de Educação, de Filosofia, de Letras e de Comunicação, enfim. Eles são educadores, pois tratam de ampliar a relação entre museu e público, ou melhor são mediadores entre a obra de arte e o público

MONITOR: É quem ajuda um professor na sala ou que veicula a imagem no HD, no caso dos computadores. Falta de autonomia e de poder próprio.

VISITA GUIADA: Outro termo preconceituoso. Pressupõe a cegueira do público e a ignorância total. Ante foi utilizado Visita dialogada (melhor!). O visitante pensa que não vai se comprometer, vai só ouvir. O termo também não é adequado (visita dialogada) pois como depende do outro para a conversa, pode amedrontar o visitante.

Se você quer ficar sozinho dentro do museu, é possível. Pode ser um momento entre você e a confortante obra de arte.

Mas se você quer conversar, chama um educador para juntos, verem a exposição, trocarem ideias e sensações e informações sobre a exposição.

CURADORIA EDUCATIVA: É usado pra dissimular o preconceito. É usado para quem organiza cursos, seminários, etc.

Bom, na realidade sou uma espécie de professora também. Não entendo o porque, nós de museus, temos um "repelimento" da educação, se somos formados pelas mesmas instituições e pela mesma pedagogia que se formam os professores. Tá certo que não carregamos conteúdos, não damos provas para avaliar e nem temos planos de aula a seguir. Partimos do outro, das referências do outro para iniciarmos nosso diálogo. Perguntamos mais, ouvimos mais e trabalhamos no improviso (lembremos: só improvisa quem domina o assunto, é igual música, teatro, enfim.)

"O desprezo pela educação que caracteriza as entidades culturais de elite é ainda maior quando essa entidade se dedica à arte, especialmente às artes plásticas. Parece que, em se tratando de arte, quanto mais protegê-la da contaminação com educação, mais valiosa será."

O museu é um lugar de elite e não está disposto a mudar sua posição. Diz que arte não se ensina. "Sejamos radicais: nada se ensina, tudo se aprender, depende do diálogo, depende do diálogo da interlocução, da intermediação, da necessidade e do interesse.

Na cultura artística brasileira, educação é considerada sinônimo de mediocridade. (...) Acredito que foi a ação repressora da ditadura e os baixos salários que criminalizaram a educação no Brasil.




    

domingo, 6 de novembro de 2011

Hiroshima, mon amour

Sempre escrevo sobre os textos que leio. Havia me esquecido que amo cinema e o quanto me faz bem "ver"...
Cada dia da minha existencia noto manias que cultivo. Dessa vez percebi que gosto de pausar o filme, como um click de fotografia... Gosto de compor a televisão. Deixo um tempo pausado e observo a tela, como se olhasse para um quadro no museu ou como se estivesse atrás de uma câmera, pronta para dar o "click".
Outra coisa que adoro fazer é escrever as frases que me toca.

Nunca havia assistido Hiroshima, mon amour. Apesar do DVD ficar pulando (isso me deixou irritadissíma) me sensibilizei com o filme.

Controlamos a memória e não controlamos o esquecimento. A gente simplesmente esqueci. O tempo não cura, o tempo mata. Afasta a presença e embaça a visão. "É um dos deuses mais lindos??". Não, definitivamente, o tempo não é um deus. O tempo é o diabo!

Como eu estou com medo de esquecer e me apavoro de pensar que vou ser esquecida.

Filme:
É um filme de amor. Uma atriz francesa vai para o Japão, especificamente em Hiroshima para fazer um filme sobre paz. As cenas pós bomba atômica são muito fortes.
Lá ela conhece um arquiteto japonês, do qual eles se aproximam intimamente encontrando o amor. Acontece que ambos moram longe e são casados. O pouquissimo tempo que eles se conhecem e que terão tempo para se conhecer não seria suficiente. Sendo assim ele elege um ponto da vida dela para ela lhe contar. Ela escolhe sua juventude, seus 20 anos na cidade de Nevers, na França, quando ela se apaixona loucamente por um soldado alemão morto em seus braços.

E assim começa o filme...

"Como você, escolhi ter uma memória de sombras, de pedras.
Lutei por conta própria, com todas as forças contra o horror de não entender o porquê dessa lembrança.
Com você, eu esqueci.

Por que negar a evidente necessidade da memória?

Eu encontro você
Lembro me de você
Quem é você

Você está me matando. Você me faz bem.
Como eu poderia imaginar que essa cidade foi feita para o amor?
E que você foi feito na medida do meu corpo?
Eu gosto de você.
Que maravilha!
Que lentidão, tão repentina.
Que doçura!
Você está me matando. Você me faz bem.

"você é como mil mulheres juntas. Você me dá muita vontade de amar."

Agora só falta matar o tempo que nos separa.

É preciso evitar pensar nas dificuldades que o mundo nos apresenta algumas vezes.
Senão, ele se tornaria irrespirável.
Afaste-se de mim!

Eu tinha fome.
Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer.

 Como com ele, o esquecimento começará por seus olhos.
Igual.
Depois, como com ele, sua voz será esquecida.
Igual.
Depois, como com ele... ele abrangerá você inteiro pouco a pouco.
Você se tornará uma canção."



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Rumores Discretos da Subjetividade.

Sinto-me feliz por encontrar esse texto.

Rumores Discretos da Subjetividade. Rosana Preciosa

E escrevo. Por que escrevo?

"Escrever para se desintoxicar, sucatear idéias, muitas vezes entrar
numa fria e malograr. Para aprender a tensionar o discurso e
desmanchar-se em lágrimas, sem que o gesto pareça sentimental. Para
recepcionar um corpo sofrido que pede socorro e espaço para viver.
Para quase se afogar e se virar nadando cachorrinho. Para abandonar o
hábito de ser. Para escorchar a pele e com ela confeccionar um manto
de memórias editáveis. Para azucrinar o ego e seu pegajoso cortejo de
arrogâncias. Para desaprender a reprovar a vida, essa nossa insistente
mania de desqualificá-la. Para se desvencilhar da idéia de que a vida
nos reserva um propósito, e cabe a cada um de nós desvendá-la. Para
aprender a rugir para o que é pesado e instituído. Para desatolar a 
subjetividade das formas acabadas. Para ser pega em “flagrante delito
de fabular”. p. 10

Assim costumam ser os meus textos: fragmentados

"(...) pensamentos fragmentários não asseguram àquele
que lê a exposição clara de um percurso teórico, de um sítio de onde se
parte.

(...)
Entretanto, se acolhido, o fragmento pode nos surpreender. De um jeito
anfíbio, ele é capaz de operar simultaneamente uma inteireza de
articulações, combinada a uma resistência a sistematizações.

Infinitos são os fios que vão arrebentando ao longo das vias expressas
de nossa existência e que temos que re-amarrar. Porém com a extrema
delicadeza de não emboçar as fissuras, apagando as marcas de
experiências que nos são vitais, porque não nos deixam mais retornar
ao que éramos antes.

O fragmento recolhe com simpatia nossas ninharias, falhas,
contradições, disparates. Enfim, tudo que de residual a vida emana.

A escritura fragmentária, organizada em torno de idéias-palavras,
atadas entre si por um elo de sutil afinidade, é um buquê de formas que
não forjam nem um destino textual, sequer um destino subjetivo. Ao
contrário, incorpora sem culpa a “doida poligrafia”(Roland Barthes)
de uma caderneta de apontamentos solta em campo."

Um conselho para esse momento dramático em que vivo

Desmaiar o eu para que um
funcionamento apareça e aceite com espanto o inominável. “(...) sim,
acontece-me e ainda acontecerá esquecer quem sou e evoluir diante de
mim à maneira de um estranho”(Breckett). Franqueia-se a faculdade da
invenção.
São os meus: Esquizilda, Bestacel, Esquisitofrenico, En-Túlio, enfim, minhas aliterações

“Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a
beleza das frases, mas a doença delas.(...) Gostar de fazer defeitos na
frase é muito saudável(...)”(Manuel de Barros). Trair a língua é forçá-la a compassar com
a palpitação do corpo que escreve. Inseminar tal euforia que a faça
entortar, que a deixe fanha, gaga."

Os sons do corpo, a música nata

"Um corpo abriga sons para serem ouvidos. Nele transitam
cadências para serem experimentadas. É dessa doida bioquímica
de sons e ritmos que somos feitos. Mas vivemos moucos e arrítmicos.
Desfazer-se desse coágulo é reinvestir no som que jorra forte da
garganta, que molda outra linguagem, outro jeito de corpo. Cada
emissão acompanhando-se de modulações que agitam os diagramas do
pensamento. Reintrosados, som e ritmo, o corpo transido afeiçoa-se a
cada meandro seu. Invoca para si outra estatura. Reapossa-se de sua
carne antes descorada e flácida, agora belamente encarnada."

Pensamento viaja..... 
Pensamentos traçam um caminho de vento.  (...) 
Ninguém é proprietário de um pensamento. Eles nos adotam, sopram
forte em nós, nos assediam no banho, no bar, numa caminhada matinal.
É exatamente nessas horas, em que não dispomos de meios para anotálos,
que eles levantam o vôo mais alto, nos intimam a seguir suas
doidas pistas e vão nos forçando a recriar nossos passos, a desejar
outras topografias na nossa existência.
Conectar-se às forças caóticas da vida, que contagiam o pensamento,
exige coragem de se libertar de um modelo profissional de seu exercício.
Um modo de conhecimento escoltado por um saber formal, capaz de
articular discursos competentes e desonestos do ponto de vista
existencial. Varrem-se as incertezas, isolam-se as idéias estranhas,
inclassificáveis, evita-se qualquer sensação de desamparo. Enxota-se a
vida para o outro lado da calçada, procurando neutralizar os percalços
que significa viver. Faz-se de tudo para não desalinhar o cotidiano.

Pensar não é se alinhar com o que já se conhece. É justamente o
contrário disso. Movido por uma espécie de força forasteira, que
não se interessa em refletir sobre a vida, mas agregar-lhe algo mais,
pensa-se o impensável. Isso exige de nós piruetas mortais e quase
nunca podemos contar com uma cama elástica que ampare as quedas.
Despenca-se, fraturam-se ossos. Não é nada fácil desmontar um campo
pronto de referências afixado na alma.


 "Dai-nos, Senhor, a poesia de cada dia"

"Versos que vigiam a vida, expulsam o que se exalta e possa trazer
discordâncias, rupturas. Poema contrito, moderado. Experiência soft que
evita confrontos. Poema para vedar os ouvidos, cimentar os poros,
lacrar a alma.

(...) 
Se alguém me perguntasse se a poesia salva, impede que alguém
prossiga reproduzindo valores modelares, eu não saberia
responder. Mas certamente eu diria que ela os confronta, os torna
inadequados, inventa saídas, nos encoraja a desprogramá-los."



Eu


Estou de pé em meu quarto, diante de um grande espelho oval.
Espécie de oráculo, a quem confio quem sou.

(...)

Dos vários sentidos que se possa atribuir ao espelho, podemos dizer
que hoje ele funciona prioritariamente como uma espécie de cabine de
vigilância, sob o comando de um eu que internalizou direitinho os
paradigmas indispensáveis ao bom funcionamento social.



É reconfortante possuir um eu que se incumbe de catalogar nossas imagens, 
selecionando aquelas que possam ter maior aceitação social, que não atritem com os
referenciais dominantes, aos quais nos esforçamos em aderir.



Me diga: como você é? Sou introvertida, sensível, sonhadora. Sou...
O álbum de retratos desde muito cedo começa a existir na nossa vida.
Sob cada foto, breves legendas não só nos situam espaçotemporalmente
como também costumam fazer algum comentário sobre
nós. Em geral, nos configuram com inúmeras adjetivações. E lá vamos
nós arrastando um surrado pacote de atributos fixos em que, à força do
hábito, passamos a acreditar. Curiosamente, somos sempre ou “isso” ou
“aquilo”, aliás não só nós mesmos, mas tudo que existe à nossa volta, o
que nada nos exige, apenas respostas mecânicas, esquemáticas,
simplificadoras. É dessa forma que a vida faz sentido : eliminando
quaisquer variáveis.


Quebre o espelho e aspire o azar


Desalojada das formas em que se reconhecia, um discreto lamento
começa a assediá-la, mas finge não escutá-lo. Decide apegar-se com
fúria à urgência dessa nova vida, intensivamente frágil. Não lhe passa
pela cabeça rotulá-la. Prefere carregar consigo esse inominável estado
inédito. Prefere de agora em diante deixar a porta aberta.“(...) Não
sou mais eu mesmo como antes, fui arrebatado em um devir outro,
levado para além de meus Territórios existenciais familiares.”(Guattari, Caosmose,p.118)


Afinal, um sujeito anuncia que
vai nos revelar sua identidade, sua intimidade, seu eu, e acaba por se
dar conta de que está à procura de uma substância que não reside em
lugar algum. E que não existe um cá dentro, revestido de plácida
intimidade, protetor, e um lá fora que o ameaça constantemente com a
degradação de si. E o que se vê constituir-se na tela é exatamente o
contrário disso: presenciamos um alguém produzindo-se, confabulando
com o vivo, em permanente conexão com as paisagens do fora, capaz
de ser habitado por uma população estranha a si mesmo, um ativador
consciente de misturas tais que vai atraindo para si novas montagens
de existência. Trata-se de alguém em empenhada transformação.
Alguém aceso.
 

O espelho partiu-se. Eu não coincido mais com você, desgarrei-me,
quero me multiplicar.

Quanto a você, vai ter que aprender a nascer.

Nascer pelo meio

Intuir a urgência de se fabular um procedimento de investigação da
existência, que acolha nossos estranhamentos, nossos esgarçamentos identitários, nossos balbucios.


Brotar pelo meio é opor-se a um destino que progride em direção a
algo, é acariciar riscos, acumular êxitos e retumbantes fracassos,
é se infiltrar por alguma vizinhança, fazendo conexões, é povoar o
cotidiano de incertezas, é recolher-se numa tenda de silêncios, num
gesto de delicadeza diante do que está a se formar e maturar diante de
si. É fazer vingar um sujeito, cuja pupila arquiva imagens do fora,
recusando-se a fazê-las coincidir consigo mesmo. É aprender a avançar
com a fatal coragem de não saber o que esperar dos encontros. É
desembarcar em terra firme, aos berros, sem saber no que isso vai dar,
apenas dobrando-se aos imponderáveis da existência.




Rolam entontecidos
pelo túnel como se estivessem expostos a um vento brincalhão que se
diverte em lhes virar pelo avesso, em soprar-lhes na alma espanto. O
vento e suas desorientadas acrobracias invade o espaço vida, inventa
um arrevesado sentido para a existência. Ao cabo da brincadeira as
crianças se sentem esgotadas e estranhamente revigoradas.
 

Uma casa (Nyumba- Kaya - Mia Couto)


A casa quarentena, isolada, isolante, lado a lado com uma outra, a
coletiva. Pátio aberto aos encontros entre dessemelhantes, que
não pretendem fundir-se numa família de iguais.22 Um aglomerado
vazado, de cômodos articulados, de entradas e saídas múltiplas. Uma
matéria viva compartilhando experiências com quem nela circule,
provendo a todos com uma espécie de manto que aninha sem sufocar.



Na casa de pai e mãe eu era órfão. E fugia de lá pelas rachaduras
da parede de meu quarto, pequenas brechas que me serviam de
passagem. Foi por ali que passei a vazar todas as noites, tramando
percursos que desarmassem a hegemonia das formas prontas.



(...) a casa, essa excêntrica máquina de cristalização de
afetos, produzindo catatonia coletiva.
ouve.



Houve um momento em que a casa começou a se desfigurar
completamente. Suspeitei. Pareceu-me menos inteiriça, menos
homogênea, menos contraída, mais fluida, gelatinosa até.



Eu nunca estive à procura de um território, mas de estados de
território, espaços que me fisgam pelo estranhamento de seus
volumes, formas, cores vivas, sua explícita plasticidade. E estou sempre
lá, operando nessa coordenada incerta, irreproduzível graficamente,
trafegando nesse espaço movente, silencioso, incapturável.



****

Uma vida vulnerável, enrodilhada de sensações. Que tipo de
existência pode advir de estados informes?



Que corpo suportaria tanto assédio?


Alguém que emprestasse sua carne à escuta da existência.
Um tipo andarilho, um freqüentador de quebradas, alguém disposto a
“fazer um perigo”, segundo Clarice Lispector. Um náufrago de si, que
teima em ancorar seus navios em terras devastadas.



%%%%%


É a poesia abrindo alas à estranheza. A instrução do poeta funciona
como um rito que prepara o ouvido a ser capaz de perder-se de si,
desnortear-se, consumir-se lentamente.



Caminho do caminhante
 
Biografia às avessas, que movimenta um núcleo nu de sujeito, que
cartografa seus espaços sempre desmontáveis: pessoa que nasce num
local qualquer, que renasce numa cidade ainda maior, e que se percebe
sempre outra, de um modo sempre diverso do anterior, que vai “se variando”

de destinação, porque recusa a biografia-destino, a biografiainformante
de um sujeito.



Projeta a vida numa arte da vadiagem a serviço das
experimentações. A viagem de “vários” espaço afora, saltando sempre
para novos inícios, incarnando um eu-feixe de sensações. “Tenho fome
de me tornar em tudo que não sou”


"Viver é uma ordem"  (Drummond)


Em sua história pessoal decide trocar o
berço monológico por um ambiente polifônico, pulsante e vulnerável.



Ser Sendo


É preciso ser arrojado para se querer tornar em tudo o que não se é. É
preciso o esforço da torção para chegar a desconjuntar o sujeito que se
é, que se acostumou a ser. E poder aparecer diante de si mesmo
estranho, áspero, alquebrado, ambulante, um balaio de muitos.



“Para que alguma coisa ocorra,
é preciso criar um espaço vazio.”
( Peter Brook – A porta aberta)


 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Conceito de Cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural

Quando começei a ler esse texto, achei um porre... Pensava que era mais uma daquelas acadêmicas que endossam seu monte de blablablá com etimologias, discurso de competência e principalmente aquelas conversas fora da realidade, pra "boi dormir".

Mas conforme fui lendo melhor, passando pelas páginas, pude perceber que que a moça é boa. Sim ela realmente se posiciona no texto, se eu concordei ou não, sei lá, isso nem interessa, mas que o texto fica delicioso e te põe para refletir: isso é que importa!

Ah, sinto informar: o final do texto é chato!

Conceito de Cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural e a preservação. Waldisa Russio Camargo Guarnieri. 


Fato museológico "é a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem também pertence e sobre a qual tem o poder de agir."

A informação passada pelo museu facilita a ação transformadora do Homem. (isso é que espero)

O Museu 

Essa instituição não implica em reconhecimento apenas por quem o cria e implanta ou pelo sistema e órgãos do Poder, mas sobretudo, no reconhecimento público. Pelo simples fato de que temos feito museus PARA a comunidade e não COM A COMUNIDADE, temos "quistos de coleções" e não, necessariamente, estabelecemos museológicos reconhecidos pela comunidade ( " a que se destinam", na frase gasta do discurso competente)

O homem é o ser que se realiza criticamente, historicamente; ao realizar-se, ele constróe sua História e faz sua Cultura. O existir do Homem, seu viver, está relacionado com seu pensamento e ação, com sua produção, seu trabalho. O homem é um animal que trabalha mesmo quando brinca, porque age conscientemente (ou com a possibilidade do exercício consciente) e decide, por ação ou omissão, o seu destino.

Enquanto indaga: conhece, constrói... E ao construir a História, ele age, ele modifica. Cria beleza, tece relações humanas, faz sua Cultura...

Assim, a Cultura do Homem compreende suas ideias, valores, seu imaginário, sua criação intelectual ou intelectual e material.

Para o museólogo o conceito de cultura com que ele opera é o mais simples de todos: cultura é o fazer e o viver cotidiano: cultura é o trabalho do homem em todas as suas manifestações e aspectos, cultura é a relação do homem com seu meio, com os outros seres.

A preservação do patrimônio cultural é um ato político e temos de assumi-lo como tal, mesmo nas nossas áreas específicas de atuação profissional.

Indagações (que são as minhas)

Esse patrimônio é resultado da valorização de uma elite ou de uma eleição por parte de camadas e segmentos significativos da comunidade e da sociedade?

Uma sociedade que privilegia, em sua preservação, o patrimônio imobiliário não poderá, mais do que estar valorizando técnicas construtivas ou testemunhos arquitetônicos, estar se preocupando priorotariamente ou apenas com os aspectos econômicos dos chamados "bens de raiz"? (não sei se concordo plenamente com isso, acho que tem o lance do estilo, da arte na arquitetura também, além do esquema perverso)

Uma sociedade que esquece o patrimônio constituído pelos bens móveis produzidos pelo Homem, não estará instilando (persuadindo) sutilmente a substituição do valor da produção humana pelo valor de consumo, o fazer pelo possuir, o que, de alguma maneira, não estaria contribuindo para maior alienação do homem?  
 



A mulher esqueleto

Mulheres que correm com o Lobos. Mitos e arquétipo da mulher selvagem. Clarissa Pinkola Estés.

Minha leitura do Capítulo 05:
A Caçada: Quando o coração é um caçador solitário


Mulher esqueleto

Devemos encarar a vida e os relacionamentos como um ciclo de vida-morte-vida. O tempo todo morremos, mas a morte também nos leva a uma outra vida. Entre os lobos, os ciclos da vida-morte-vida da natureza e do destino são encarados com elegância, inteligência e persistência para ficar junto do outro e viver por muito tempo e o melhor possível.

Para que os seres humanos vivam dessa forma e sejam leais desse jeito que é o mais sábio, o mais duradouro e o mais sensível, é preciso que se enfrente aquilo que mais teme. Não há meios de escapar. Teremos que dormir com a morte!!

A mulher esqueleto é uma história de caça a respeito do amor. Nas histórias do norte, o amor não é um encontro romântico entre dois amantes e sim, o amor como a união entre dois serescuja força reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança, como a vida e a morte.

Nessa história a morte não é um mal e sim uma divindade!

A história:

"Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.
Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.
O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu - logo em que! - nos ossos das costelas da Mulher-esqueleto. O pescador pensou: “Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!” Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá em baixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.
O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado a superfície e caia suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos. - Agh! - gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte.
- Agh! - berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção

da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia.Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás.Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.

- Aaagggggghhhh! - uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saia correndo agarrado a vara de pescar.E o cadáver branco da Mulher-esqueleto, ainda preso a linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou.Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.
O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também a todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.
Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela - aquilo - jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro,um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um que de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.

- Oh, na, na, na. - Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos.- Oh, na, na, na. - Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano.

Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra - não tinha coragem - para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá em baixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos.
O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando.Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.
A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima a luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo,e pôs a boca junto a lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu,bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm!... Bom, Bomm!
Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
- Carne, carne, carne! Carne, carne, carne!- E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne.Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.
Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro,enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.
As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água.As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem."

Para amar é preciso não só ser forte, mas também sábio. A força vem do espírito. A sabedoria, da Mulher- esqueleto. Devemos desenvolver um relacionamento com a natureza da vida-morte-vida. Quando temos esse tipo de relacionamento não saímos mais por ai em busca de fantasias, mas nos tornamos conhecedores das mortes necessárias e nascimentos que criam o verdadeiro relacionamento.

Na cultura ocidental a morte foi encoberta por vários dogmas e doutrinas até um ponto que se separou de vez da sua outra metade, a vida. Aprendemos que a morte é sempre acompanhada de mais morte. Isso não é verdade, pois a morte está sempre encubada no processo de uma vida nova, mesmo quando nossa existência foi retalhada até os ossos.

É fato que dentro de um único relacionamento amoroso existem muitos finais. Mesmo assim, de algum modo e em algum ponto quando duas pessoas se amam, existe um coração e um alento. Enquanto um lado do coração se esvazia, o outro se enche. Quando uma respiração termina, outra se inicia.

Se aceitarmos que não existe nada além da morte tomamos relacionamentos amorosos como pavorosos, teremos medo de passar um fim que seja...

Para algumas culturas (a nossa!) a morte aparece com uma foice na mão, pronta para ceifar e acabar com a vida de todos. Já para outras culturas, principalmente no leste da Ìndia e a cultura maia, a Morte é uma divindade. Ela abraça os que já estão morrendo, proporcionando alívio. Diz-se que ela vira o bebê no útero para a posição de cabeça para baixo a fim de que ele possa nascer. Diz-se que ela guia as mãos da parteira, que abre o caminho para o leite nos seios maternos e que ainda nos consola quem quer que esteja chorando sozinho.

Sem a morte, não há lições; sem a morte não há fundo escuro contra o qual o diamante contila. A nossa cultura nos ensina muitas vezes a jogar a mulher esqueleto penhasco abaixo, não só porque ela é apavoante, mas também porque demora muito para que aprendamos a lidar com ela. Um mundo desalmado estimula cada vez maior rapidez na procura do único modo eficaz de ser. No entanto o milgre que estamos procurando leva tempo: tempo para encontrá-lo, tempo para trazê-lo à vida.

Bom, o capítulo não acaba por aqui... 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Arpilleras

Da resistência chilena, as Arpilheiras.

Encantei-me com o trabalho dessas mulheres chilenas. A arpillera era uma técnica textil chilena que possui suas raízes numa antiga tradição popular, iniciada por um grupo de bordadeiras em Isla Negra, localizada no litoral do Chile.

Minha amada cantora Violeta Parra ajudou a difundia essa técnica. Violeta dizia: " as arpilleras são como canções que se pintam"

A arpilleras são montadas com suporte de aniagem (tecido cru) pano rústico provenientes de saco de farinhas ou batatas. Toda costura é feita a mão, utilizando agulhas e fios. As vezes são adicionados fios de lã à mão ou em crochè, para realçar as figuras. O tamanho era o mesmo do saco, depois de lavado era cortado em seis partes e seis mulheres bordam suas própria história, a de sua família e de sua comunidade. Violeta expôs uma série de arpilleras no Louvre em 1964.

As arpilleras além de registrar a vida cotidiana das comunidades e de afirmar sua identidade, elas também foram uma forma de expressar a realidade e sobreviver em frente a tempos "bicudos" que a política chilena passou. Graças as arpilheras muitas mulheres chilenas puderam denunciar e enfrentar a ditadura que começou em 1973.

As arpilheras mostravam o que estava acontecendo nas suas vidas, constituindo força que elas levavam em busca da justiça e da verdade. Essas obras podiam quebrar o silêncio imposto pela situação vivida no país. Hoje, é testemunho vivo e contrinuição para a memória e história chilena.

As mulheres mandavam suas arpilleras para o exterior afim de comunicar o que estava ocorrendo no país. O governo do Chile quis de todas as formas descobrir quem estava sendo antichilena. Uma mulher chamada Chinda Perez, foi processada por enviar as arpilleras para a Suíça.

O que me chama atenção é que essa história foi registrada pela sensibilidade das mulheres em meio do horror e das atrocidades em que estavam vivenciando. Essa foi sua luta!

" Não ficaremos de mãos cruzadas diante de tanta repressão e miséria. Levaram nossos maridos, filhos e líderes. Porém, enquanto há vida há esperança, e expressamos isto em nossas ações" (testemunho dado por um grupo de base em 1987)





Essa impactante arpillera mostra pessoas sendo torturadas. Descreve graficamente a experiência de tortura testemunhadas por sobreviventes entrevistados por Violeta Morales durante a busca pelo irmão desaparecido, Newton. Mostra pessoas desumanizadas, sem traços individuais, passando por uma experiência coletiva e não pessoal. Ressalta-se a determinação da artesã em retratar esta experiência desumana e deixar um testemunho indelével.
Bibliografia:

Arpilleras da resistência política chilena/ curadoria Roberta Bacic; apresentação Marcelo Mattos Araújo.- São Paulo, 2011.