Usarei esse espaço como memória. Sem pretensões poéticas ou acadêmicas. É o caminho do caminhante, que se faz o caminho ao caminhar (parafraseando Antonio Machado)...
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
A nova paisagem sonora
IN: O ouvido pensante, Murray Schafer
Sim, mas isso é música?
Música: Arte de combinar sons visando à beleza da forma e a expressão das emoções; os sons assim produzidos; som agradável, por exemplo o canto de um pássaro, o murmúrio de um riacho, o latido de cães. (The Concise English Dictionary)
p.120
- "(...) não se pode ter uma definição que não inclua todos os objetos ou atividades de sua categoria"
- " Quando John Cage abre a porta da sala de concerto e encoraja os ruídos da rua a atravessar suas composições, ele ventila a arte da música com conceitos novos e aparentemente sem forma."
Schafer escreveu a Cage e pediu uma definição de música. Sua resposta:
" Música é sons, sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora de salas de concerto" - veja Thoreau
- "A referência é ao Walden de Thoreau, em que o autor descobre um inesgotável entretenimento nos sons e visões da natureza.
- "(...) Pouco a pouco, no decorrer do século XX, todas as definições convencionais de música vêm sendo desacreditadas pelas abundantes atividades dos próprios músicos."
p.121
- "Primeiro, com a tremenda expansão dos instrumentos de percussão em nossas orquestras ( produzem sons arrítmicos e sem altura definida) (...)"
- " Hoje todos os sons pertencem a um campo contínuo de possibilidades, situado dentro do domínio abrangente da música."
- "Eis a nova orquestra: o universo sônico"
- " (...) os educadores musicais são os guardiões da teoria e prática da música. E toda a natureza dessa teoria e prática terá que sr inteiramente reconsiderada"
p.123
- Um dos propósitos desta parte do livro é dirigir os ouvidos dos ouvintes para a nova paisagem sonora da vida contemporânea e familiarizá-los com um vocabulário de sons que se pode esperar ouvir, tanto de dentro como fora das salas de concerto. Pode ser que os ouvintes não gostem de todos os sons dessa nova música, e isso também será bom. Pois, juntamente com outras formas de poluição, o esgoto sonoro de nosso ambiente contemporâneo não tem precedentes na história humana."
p.124
O Ambiente Sônico
- "Qualquer coisa que se mova, em nosso mundo, vibra o ar."
- "Caso ela se mova de modo a oscilar mais de dezesseis vezes por segundo, esse movimento é ouvido como som. O mundo então está cheio de sons. Ouça"
- "Sente-se em silêncio por um momento e receba os sons"
p.125
- " Se a nova orquestra sonora é o universo sônico, como diferenciarmos os instrumentos? Como poderíamos escrever a biografia completa de um passo, de modo a sabermos que era a história do seu passo e não do meu?"
Uma garota decidida foi até a esquina no sábado e tentou elaborar uma notação descritiva para os diferentes pés dos passantes. Ela observou e ouviu a coreografia dos pés e anotou o tamanho do sapato ou bota; a altura de seu passo, agudo ou grave; o timbre de seu som, metálico, arrastado ou pesado; e o tempo de seu movimento, desde o ágil tique-taque dos saltos pontiagudos até o abafado arrastar de pés errantes"
- "Os sons da orquestra universal são infinitamente variados"
- "Os sons ouvidos podiam ser divididos em sons produzidos pela natureza, por seres humanos e por engenhocas elétricas ou mecânicas."
- "Será que as pessoas escutam os mesmos sons que escutamos hoje?"
Estudo comparativo em documentos históricos para listar os sons contidos neles. Foram:
- A Batalha entre o Carnaval e a Quaresma de Pieter Brueguel. Apresenta sons de uma paisagem urbana holandesa do século XVI.
- Trecho de um romance de Arnold Bennet e nos apresentou os sons de uma cidade industrial do norte da Inglaterra no século XIX.
- Aldeia indígena norte-americana
- Uma cena bíblica, etc
A nova paisagem sonora
Sim, mas isso é música?
Música: Arte de combinar sons visando à beleza da forma e a expressão das emoções; os sons assim produzidos; som agradável, por exemplo o canto de um pássaro, o murmúrio de um riacho, o latido de cães. (The Concise English Dictionary)
p.120
- "(...) não se pode ter uma definição que não inclua todos os objetos ou atividades de sua categoria"
- " Quando John Cage abre a porta da sala de concerto e encoraja os ruídos da rua a atravessar suas composições, ele ventila a arte da música com conceitos novos e aparentemente sem forma."
Schafer escreveu a Cage e pediu uma definição de música. Sua resposta:
" Música é sons, sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora de salas de concerto" - veja Thoreau
- "A referência é ao Walden de Thoreau, em que o autor descobre um inesgotável entretenimento nos sons e visões da natureza.
- "(...) Pouco a pouco, no decorrer do século XX, todas as definições convencionais de música vêm sendo desacreditadas pelas abundantes atividades dos próprios músicos."
p.121
- "Primeiro, com a tremenda expansão dos instrumentos de percussão em nossas orquestras ( produzem sons arrítmicos e sem altura definida) (...)"
- " Hoje todos os sons pertencem a um campo contínuo de possibilidades, situado dentro do domínio abrangente da música."
- "Eis a nova orquestra: o universo sônico"
- " (...) os educadores musicais são os guardiões da teoria e prática da música. E toda a natureza dessa teoria e prática terá que sr inteiramente reconsiderada"
p.123
- Um dos propósitos desta parte do livro é dirigir os ouvidos dos ouvintes para a nova paisagem sonora da vida contemporânea e familiarizá-los com um vocabulário de sons que se pode esperar ouvir, tanto de dentro como fora das salas de concerto. Pode ser que os ouvintes não gostem de todos os sons dessa nova música, e isso também será bom. Pois, juntamente com outras formas de poluição, o esgoto sonoro de nosso ambiente contemporâneo não tem precedentes na história humana."
p.124
O Ambiente Sônico
- "Qualquer coisa que se mova, em nosso mundo, vibra o ar."
- "Caso ela se mova de modo a oscilar mais de dezesseis vezes por segundo, esse movimento é ouvido como som. O mundo então está cheio de sons. Ouça"
- "Sente-se em silêncio por um momento e receba os sons"
p.125
- " Se a nova orquestra sonora é o universo sônico, como diferenciarmos os instrumentos? Como poderíamos escrever a biografia completa de um passo, de modo a sabermos que era a história do seu passo e não do meu?"
Uma garota decidida foi até a esquina no sábado e tentou elaborar uma notação descritiva para os diferentes pés dos passantes. Ela observou e ouviu a coreografia dos pés e anotou o tamanho do sapato ou bota; a altura de seu passo, agudo ou grave; o timbre de seu som, metálico, arrastado ou pesado; e o tempo de seu movimento, desde o ágil tique-taque dos saltos pontiagudos até o abafado arrastar de pés errantes"
- "Os sons da orquestra universal são infinitamente variados"
- "Os sons ouvidos podiam ser divididos em sons produzidos pela natureza, por seres humanos e por engenhocas elétricas ou mecânicas."
- "Será que as pessoas escutam os mesmos sons que escutamos hoje?"
Estudo comparativo em documentos históricos para listar os sons contidos neles. Foram:
- A Batalha entre o Carnaval e a Quaresma de Pieter Brueguel. Apresenta sons de uma paisagem urbana holandesa do século XVI.
- Trecho de um romance de Arnold Bennet e nos apresentou os sons de uma cidade industrial do norte da Inglaterra no século XIX.
- Aldeia indígena norte-americana
- Uma cena bíblica, etc
domingo, 13 de novembro de 2011
Os animais haviam partido
http://www.youtube.com/watch?v=1DJaPxJKhYU
Acordei e, pela primeira vez
Os animais tinham ido embora
Deixou essa casa vazia agora
Não tenho certeza se é o meu lugar
Ontem você me pediu
Para te escrever uma música agradável
Vou fazer o meu melhor agora
Mas você se foi por tanto tempo
A janela está aberta agora
E o inverno se estabelece
A gente chama isso de Natal
Quando as propagandas começam
Eu amo sua depressão
E amo sua dupla personalidade
Eu amo quase tudo
O que você tem a oferecer
Oh, eu sei é que eu te deixei
Em lugares de desespero
Oh, eu sei que te amo
Então, por favor, jogue suas tranças pra baixo
À noite eu viajo sem você
E espero não acordar
Porque acordar sem você
É como beber de uma xícara vazia
Acordei e, pela primeira vez,
Os animais tinham ido embora
Nossos relógios estão "tique-taqueando"
Então antes de nosso tempo acabar
Nós poderíamos arranjar uma casa e algumas caixas na grama
Nós poderíamos fazer bebês e músicas acidentais
Eu sei que fui um mentiroso
E sei que fui um tolo
Espero que não tenhamos terminado
Mas estou feliz de termos quebrado as regras
Minha cova está profunda agora
Mas sua luz ainda está brilhando
Eu cubro meus olhos
Ainda tudo o que eu vejo é você
Oh, eu sei é que eu te deixei
Em lugares de desespero
Oh, eu sei que te amo
Então, por favor, jogue suas tranças pra baixo
À noite eu viajo sem você
E espero não acordar
Pois acordar sem você
É como beber de uma xícara vazia
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Educadores de Museus
As pessoas que trabalham no setor educativo de museus são EDUCADORES.
Alguns termos me irrita profundamente como hoje vou fazer MONITORIA. Ou alguém que me pergunta "você é o MONITOR?". Quer me deixar com raiva nas veias e sangue escoando pelo meu ventre é dizer: "Gente, presta atenção na GUIA".
Como todos esses termos existem e eu fico demasiadamente incomodada quando as pessoas confundem, resolvi esclarecer, partindo de uma texto:
Educação em Museus: termos que revelam preconceitos. Ana Mae Barbosa
EDUCADORES: Geralmente são formados em Universidades nos cursos de História, de Arte, de Educação, de Filosofia, de Letras e de Comunicação, enfim. Eles são educadores, pois tratam de ampliar a relação entre museu e público, ou melhor são mediadores entre a obra de arte e o público.
MONITOR: É quem ajuda um professor na sala ou que veicula a imagem no HD, no caso dos computadores. Falta de autonomia e de poder próprio.
VISITA GUIADA: Outro termo preconceituoso. Pressupõe a cegueira do público e a ignorância total. Ante foi utilizado Visita dialogada (melhor!). O visitante pensa que não vai se comprometer, vai só ouvir. O termo também não é adequado (visita dialogada) pois como depende do outro para a conversa, pode amedrontar o visitante.
Se você quer ficar sozinho dentro do museu, é possível. Pode ser um momento entre você e a confortante obra de arte.
Mas se você quer conversar, chama um educador para juntos, verem a exposição, trocarem ideias e sensações e informações sobre a exposição.
CURADORIA EDUCATIVA: É usado pra dissimular o preconceito. É usado para quem organiza cursos, seminários, etc.
Bom, na realidade sou uma espécie de professora também. Não entendo o porque, nós de museus, temos um "repelimento" da educação, se somos formados pelas mesmas instituições e pela mesma pedagogia que se formam os professores. Tá certo que não carregamos conteúdos, não damos provas para avaliar e nem temos planos de aula a seguir. Partimos do outro, das referências do outro para iniciarmos nosso diálogo. Perguntamos mais, ouvimos mais e trabalhamos no improviso (lembremos: só improvisa quem domina o assunto, é igual música, teatro, enfim.)
"O desprezo pela educação que caracteriza as entidades culturais de elite é ainda maior quando essa entidade se dedica à arte, especialmente às artes plásticas. Parece que, em se tratando de arte, quanto mais protegê-la da contaminação com educação, mais valiosa será."
O museu é um lugar de elite e não está disposto a mudar sua posição. Diz que arte não se ensina. "Sejamos radicais: nada se ensina, tudo se aprender, depende do diálogo, depende do diálogo da interlocução, da intermediação, da necessidade e do interesse.
Na cultura artística brasileira, educação é considerada sinônimo de mediocridade. (...) Acredito que foi a ação repressora da ditadura e os baixos salários que criminalizaram a educação no Brasil.
VISITA GUIADA: Outro termo preconceituoso. Pressupõe a cegueira do público e a ignorância total. Ante foi utilizado Visita dialogada (melhor!). O visitante pensa que não vai se comprometer, vai só ouvir. O termo também não é adequado (visita dialogada) pois como depende do outro para a conversa, pode amedrontar o visitante.
Se você quer ficar sozinho dentro do museu, é possível. Pode ser um momento entre você e a confortante obra de arte.
Mas se você quer conversar, chama um educador para juntos, verem a exposição, trocarem ideias e sensações e informações sobre a exposição.
CURADORIA EDUCATIVA: É usado pra dissimular o preconceito. É usado para quem organiza cursos, seminários, etc.
Bom, na realidade sou uma espécie de professora também. Não entendo o porque, nós de museus, temos um "repelimento" da educação, se somos formados pelas mesmas instituições e pela mesma pedagogia que se formam os professores. Tá certo que não carregamos conteúdos, não damos provas para avaliar e nem temos planos de aula a seguir. Partimos do outro, das referências do outro para iniciarmos nosso diálogo. Perguntamos mais, ouvimos mais e trabalhamos no improviso (lembremos: só improvisa quem domina o assunto, é igual música, teatro, enfim.)
"O desprezo pela educação que caracteriza as entidades culturais de elite é ainda maior quando essa entidade se dedica à arte, especialmente às artes plásticas. Parece que, em se tratando de arte, quanto mais protegê-la da contaminação com educação, mais valiosa será."
O museu é um lugar de elite e não está disposto a mudar sua posição. Diz que arte não se ensina. "Sejamos radicais: nada se ensina, tudo se aprender, depende do diálogo, depende do diálogo da interlocução, da intermediação, da necessidade e do interesse.
Na cultura artística brasileira, educação é considerada sinônimo de mediocridade. (...) Acredito que foi a ação repressora da ditadura e os baixos salários que criminalizaram a educação no Brasil.
domingo, 6 de novembro de 2011
Hiroshima, mon amour
Sempre escrevo sobre os textos que leio. Havia me esquecido que amo cinema e o quanto me faz bem "ver"...
Cada dia da minha existencia noto manias que cultivo. Dessa vez percebi que gosto de pausar o filme, como um click de fotografia... Gosto de compor a televisão. Deixo um tempo pausado e observo a tela, como se olhasse para um quadro no museu ou como se estivesse atrás de uma câmera, pronta para dar o "click".
Outra coisa que adoro fazer é escrever as frases que me toca.
Nunca havia assistido Hiroshima, mon amour. Apesar do DVD ficar pulando (isso me deixou irritadissíma) me sensibilizei com o filme.
Controlamos a memória e não controlamos o esquecimento. A gente simplesmente esqueci. O tempo não cura, o tempo mata. Afasta a presença e embaça a visão. "É um dos deuses mais lindos??". Não, definitivamente, o tempo não é um deus. O tempo é o diabo!
Como eu estou com medo de esquecer e me apavoro de pensar que vou ser esquecida.
Filme:
É um filme de amor. Uma atriz francesa vai para o Japão, especificamente em Hiroshima para fazer um filme sobre paz. As cenas pós bomba atômica são muito fortes.
Lá ela conhece um arquiteto japonês, do qual eles se aproximam intimamente encontrando o amor. Acontece que ambos moram longe e são casados. O pouquissimo tempo que eles se conhecem e que terão tempo para se conhecer não seria suficiente. Sendo assim ele elege um ponto da vida dela para ela lhe contar. Ela escolhe sua juventude, seus 20 anos na cidade de Nevers, na França, quando ela se apaixona loucamente por um soldado alemão morto em seus braços.
E assim começa o filme...
"Como você, escolhi ter uma memória de sombras, de pedras.
Lutei por conta própria, com todas as forças contra o horror de não entender o porquê dessa lembrança.
Com você, eu esqueci.
Por que negar a evidente necessidade da memória?
Eu encontro você
Lembro me de você
Quem é você
Você está me matando. Você me faz bem.
Como eu poderia imaginar que essa cidade foi feita para o amor?
E que você foi feito na medida do meu corpo?
Eu gosto de você.
Que maravilha!
Que lentidão, tão repentina.
Que doçura!
Você está me matando. Você me faz bem.
"você é como mil mulheres juntas. Você me dá muita vontade de amar."
Agora só falta matar o tempo que nos separa.
É preciso evitar pensar nas dificuldades que o mundo nos apresenta algumas vezes.
Senão, ele se tornaria irrespirável.
Afaste-se de mim!
Eu tinha fome.
Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer.
Como com ele, o esquecimento começará por seus olhos.
Igual.
Depois, como com ele, sua voz será esquecida.
Igual.
Depois, como com ele... ele abrangerá você inteiro pouco a pouco.
Você se tornará uma canção."
Cada dia da minha existencia noto manias que cultivo. Dessa vez percebi que gosto de pausar o filme, como um click de fotografia... Gosto de compor a televisão. Deixo um tempo pausado e observo a tela, como se olhasse para um quadro no museu ou como se estivesse atrás de uma câmera, pronta para dar o "click".
Outra coisa que adoro fazer é escrever as frases que me toca.
Nunca havia assistido Hiroshima, mon amour. Apesar do DVD ficar pulando (isso me deixou irritadissíma) me sensibilizei com o filme.
Controlamos a memória e não controlamos o esquecimento. A gente simplesmente esqueci. O tempo não cura, o tempo mata. Afasta a presença e embaça a visão. "É um dos deuses mais lindos??". Não, definitivamente, o tempo não é um deus. O tempo é o diabo!
Como eu estou com medo de esquecer e me apavoro de pensar que vou ser esquecida.
Filme:
É um filme de amor. Uma atriz francesa vai para o Japão, especificamente em Hiroshima para fazer um filme sobre paz. As cenas pós bomba atômica são muito fortes.
Lá ela conhece um arquiteto japonês, do qual eles se aproximam intimamente encontrando o amor. Acontece que ambos moram longe e são casados. O pouquissimo tempo que eles se conhecem e que terão tempo para se conhecer não seria suficiente. Sendo assim ele elege um ponto da vida dela para ela lhe contar. Ela escolhe sua juventude, seus 20 anos na cidade de Nevers, na França, quando ela se apaixona loucamente por um soldado alemão morto em seus braços.
E assim começa o filme...
"Como você, escolhi ter uma memória de sombras, de pedras.
Lutei por conta própria, com todas as forças contra o horror de não entender o porquê dessa lembrança.
Com você, eu esqueci.
Por que negar a evidente necessidade da memória?
Eu encontro você
Lembro me de você
Quem é você
Você está me matando. Você me faz bem.
Como eu poderia imaginar que essa cidade foi feita para o amor?
E que você foi feito na medida do meu corpo?
Eu gosto de você.
Que maravilha!
Que lentidão, tão repentina.
Que doçura!
Você está me matando. Você me faz bem.
"você é como mil mulheres juntas. Você me dá muita vontade de amar."
Agora só falta matar o tempo que nos separa.
É preciso evitar pensar nas dificuldades que o mundo nos apresenta algumas vezes.
Senão, ele se tornaria irrespirável.
Afaste-se de mim!
Eu tinha fome.
Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer.
Como com ele, o esquecimento começará por seus olhos.
Igual.
Depois, como com ele, sua voz será esquecida.
Igual.
Depois, como com ele... ele abrangerá você inteiro pouco a pouco.
Você se tornará uma canção."
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Rumores Discretos da Subjetividade.
Sinto-me feliz por encontrar esse texto.
Rumores Discretos da Subjetividade. Rosana Preciosa
E escrevo. Por que escrevo?
"Escrever para se desintoxicar, sucatear idéias, muitas vezes entrar
numa fria e malograr. Para aprender a tensionar o discurso e
desmanchar-se em lágrimas, sem que o gesto pareça sentimental. Para
recepcionar um corpo sofrido que pede socorro e espaço para viver.
Para quase se afogar e se virar nadando cachorrinho. Para abandonar o
hábito de ser. Para escorchar a pele e com ela confeccionar um manto
de memórias editáveis. Para azucrinar o ego e seu pegajoso cortejo de
arrogâncias. Para desaprender a reprovar a vida, essa nossa insistente
mania de desqualificá-la. Para se desvencilhar da idéia de que a vida
nos reserva um propósito, e cabe a cada um de nós desvendá-la. Para
aprender a rugir para o que é pesado e instituído. Para desatolar a
numa fria e malograr. Para aprender a tensionar o discurso e
desmanchar-se em lágrimas, sem que o gesto pareça sentimental. Para
recepcionar um corpo sofrido que pede socorro e espaço para viver.
Para quase se afogar e se virar nadando cachorrinho. Para abandonar o
hábito de ser. Para escorchar a pele e com ela confeccionar um manto
de memórias editáveis. Para azucrinar o ego e seu pegajoso cortejo de
arrogâncias. Para desaprender a reprovar a vida, essa nossa insistente
mania de desqualificá-la. Para se desvencilhar da idéia de que a vida
nos reserva um propósito, e cabe a cada um de nós desvendá-la. Para
aprender a rugir para o que é pesado e instituído. Para desatolar a
subjetividade das formas acabadas. Para ser pega em “flagrante delito
de fabular”. p. 10
de fabular”. p. 10
Assim costumam ser os meus textos: fragmentados
"(...) pensamentos fragmentários não asseguram àquele
que lê a exposição clara de um percurso teórico, de um sítio de onde se
parte.
que lê a exposição clara de um percurso teórico, de um sítio de onde se
parte.
(...)
Entretanto, se acolhido, o fragmento pode nos surpreender. De um jeito
anfíbio, ele é capaz de operar simultaneamente uma inteireza de
articulações, combinada a uma resistência a sistematizações.
anfíbio, ele é capaz de operar simultaneamente uma inteireza de
articulações, combinada a uma resistência a sistematizações.
Infinitos são os fios que vão arrebentando ao longo das vias expressas
de nossa existência e que temos que re-amarrar. Porém com a extrema
delicadeza de não emboçar as fissuras, apagando as marcas de
experiências que nos são vitais, porque não nos deixam mais retornar
ao que éramos antes.
de nossa existência e que temos que re-amarrar. Porém com a extrema
delicadeza de não emboçar as fissuras, apagando as marcas de
experiências que nos são vitais, porque não nos deixam mais retornar
ao que éramos antes.
O fragmento recolhe com simpatia nossas ninharias, falhas,
contradições, disparates. Enfim, tudo que de residual a vida emana.
contradições, disparates. Enfim, tudo que de residual a vida emana.
A escritura fragmentária, organizada em torno de idéias-palavras,
atadas entre si por um elo de sutil afinidade, é um buquê de formas que
não forjam nem um destino textual, sequer um destino subjetivo. Ao
contrário, incorpora sem culpa a “doida poligrafia”(Roland Barthes)
atadas entre si por um elo de sutil afinidade, é um buquê de formas que
não forjam nem um destino textual, sequer um destino subjetivo. Ao
contrário, incorpora sem culpa a “doida poligrafia”(Roland Barthes)
de uma caderneta de apontamentos solta em campo."
Um conselho para esse momento dramático em que vivo
Desmaiar o eu para que um
funcionamento apareça e aceite com espanto o inominável. “(...) sim,
acontece-me e ainda acontecerá esquecer quem sou e evoluir diante de
mim à maneira de um estranho”(Breckett). Franqueia-se a faculdade da
invenção.
funcionamento apareça e aceite com espanto o inominável. “(...) sim,
acontece-me e ainda acontecerá esquecer quem sou e evoluir diante de
mim à maneira de um estranho”(Breckett). Franqueia-se a faculdade da
invenção.
São os meus: Esquizilda, Bestacel, Esquisitofrenico, En-Túlio, enfim, minhas aliterações
“Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a
beleza das frases, mas a doença delas.(...) Gostar de fazer defeitos na
frase é muito saudável(...)”(Manuel de Barros). Trair a língua é forçá-la a compassar com
a palpitação do corpo que escreve. Inseminar tal euforia que a faça
entortar, que a deixe fanha, gaga."
beleza das frases, mas a doença delas.(...) Gostar de fazer defeitos na
frase é muito saudável(...)”(Manuel de Barros). Trair a língua é forçá-la a compassar com
a palpitação do corpo que escreve. Inseminar tal euforia que a faça
entortar, que a deixe fanha, gaga."
Os sons do corpo, a música nata
"Um corpo abriga sons para serem ouvidos. Nele transitam
cadências para serem experimentadas. É dessa doida bioquímica
de sons e ritmos que somos feitos. Mas vivemos moucos e arrítmicos.
Desfazer-se desse coágulo é reinvestir no som que jorra forte da
garganta, que molda outra linguagem, outro jeito de corpo. Cada
emissão acompanhando-se de modulações que agitam os diagramas do
pensamento. Reintrosados, som e ritmo, o corpo transido afeiçoa-se a
cada meandro seu. Invoca para si outra estatura. Reapossa-se de sua
carne antes descorada e flácida, agora belamente encarnada."
cadências para serem experimentadas. É dessa doida bioquímica
de sons e ritmos que somos feitos. Mas vivemos moucos e arrítmicos.
Desfazer-se desse coágulo é reinvestir no som que jorra forte da
garganta, que molda outra linguagem, outro jeito de corpo. Cada
emissão acompanhando-se de modulações que agitam os diagramas do
pensamento. Reintrosados, som e ritmo, o corpo transido afeiçoa-se a
cada meandro seu. Invoca para si outra estatura. Reapossa-se de sua
carne antes descorada e flácida, agora belamente encarnada."
Pensamento viaja.....
Pensamentos traçam um caminho de vento. (...)
Ninguém é proprietário de um pensamento. Eles nos adotam, sopram
forte em nós, nos assediam no banho, no bar, numa caminhada matinal.
É exatamente nessas horas, em que não dispomos de meios para anotálos,
que eles levantam o vôo mais alto, nos intimam a seguir suas
doidas pistas e vão nos forçando a recriar nossos passos, a desejar
outras topografias na nossa existência.
Conectar-se às forças caóticas da vida, que contagiam o pensamento,
exige coragem de se libertar de um modelo profissional de seu exercício.
Um modo de conhecimento escoltado por um saber formal, capaz de
articular discursos competentes e desonestos do ponto de vista
existencial. Varrem-se as incertezas, isolam-se as idéias estranhas,
inclassificáveis, evita-se qualquer sensação de desamparo. Enxota-se a
vida para o outro lado da calçada, procurando neutralizar os percalços
que significa viver. Faz-se de tudo para não desalinhar o cotidiano.
Pensar não é se alinhar com o que já se conhece. É justamente o
contrário disso. Movido por uma espécie de força forasteira, que
não se interessa em refletir sobre a vida, mas agregar-lhe algo mais,
pensa-se o impensável. Isso exige de nós piruetas mortais e quase
nunca podemos contar com uma cama elástica que ampare as quedas.
Despenca-se, fraturam-se ossos. Não é nada fácil desmontar um campo
pronto de referências afixado na alma.
"Dai-nos, Senhor, a poesia de cada dia"
"Versos que vigiam a vida, expulsam o que se exalta e possa trazer
discordâncias, rupturas. Poema contrito, moderado. Experiência soft que
evita confrontos. Poema para vedar os ouvidos, cimentar os poros,
lacrar a alma.
(...)
Se alguém me perguntasse se a poesia salva, impede que alguém
prossiga reproduzindo valores modelares, eu não saberia
responder. Mas certamente eu diria que ela os confronta, os torna
inadequados, inventa saídas, nos encoraja a desprogramá-los."
Eu
Estou de pé em meu quarto, diante de um grande espelho oval.
Espécie de oráculo, a quem confio quem sou.
(...)
Dos vários sentidos que se possa atribuir ao espelho, podemos dizer
que hoje ele funciona prioritariamente como uma espécie de cabine de
vigilância, sob o comando de um eu que internalizou direitinho os
paradigmas indispensáveis ao bom funcionamento social.
É reconfortante possuir um eu que se incumbe de catalogar nossas imagens,
selecionando aquelas que possam ter maior aceitação social, que não atritem com os
referenciais dominantes, aos quais nos esforçamos em aderir.
Me diga: como você é? Sou introvertida, sensível, sonhadora. Sou...
O álbum de retratos desde muito cedo começa a existir na nossa vida.
Sob cada foto, breves legendas não só nos situam espaçotemporalmente
como também costumam fazer algum comentário sobre
nós. Em geral, nos configuram com inúmeras adjetivações. E lá vamos
nós arrastando um surrado pacote de atributos fixos em que, à força do
hábito, passamos a acreditar. Curiosamente, somos sempre ou “isso” ou
“aquilo”, aliás não só nós mesmos, mas tudo que existe à nossa volta, o
que nada nos exige, apenas respostas mecânicas, esquemáticas,
simplificadoras. É dessa forma que a vida faz sentido : eliminando
quaisquer variáveis.
Quebre o espelho e aspire o azar
Desalojada das formas em que se reconhecia, um discreto lamento
começa a assediá-la, mas finge não escutá-lo. Decide apegar-se com
fúria à urgência dessa nova vida, intensivamente frágil. Não lhe passa
pela cabeça rotulá-la. Prefere carregar consigo esse inominável estado
inédito. Prefere de agora em diante deixar a porta aberta.“(...) Não
sou mais eu mesmo como antes, fui arrebatado em um devir outro,
levado para além de meus Territórios existenciais familiares.”(Guattari, Caosmose,p.118)
Afinal, um sujeito anuncia que
vai nos revelar sua identidade, sua intimidade, seu eu, e acaba por se
dar conta de que está à procura de uma substância que não reside em
lugar algum. E que não existe um cá dentro, revestido de plácida
intimidade, protetor, e um lá fora que o ameaça constantemente com a
degradação de si. E o que se vê constituir-se na tela é exatamente o
contrário disso: presenciamos um alguém produzindo-se, confabulando
com o vivo, em permanente conexão com as paisagens do fora, capaz
de ser habitado por uma população estranha a si mesmo, um ativador
consciente de misturas tais que vai atraindo para si novas montagens
de existência. Trata-se de alguém em empenhada transformação.
Alguém aceso.
O espelho partiu-se. Eu não coincido mais com você, desgarrei-me,
quero me multiplicar.
Quanto a você, vai ter que aprender a nascer.
Nascer pelo meio
Intuir a urgência de se fabular um procedimento de investigação da
existência, que acolha nossos estranhamentos, nossos esgarçamentos identitários, nossos balbucios.
Brotar pelo meio é opor-se a um destino que progride em direção a
algo, é acariciar riscos, acumular êxitos e retumbantes fracassos,
é se infiltrar por alguma vizinhança, fazendo conexões, é povoar o
cotidiano de incertezas, é recolher-se numa tenda de silêncios, num
gesto de delicadeza diante do que está a se formar e maturar diante de
si. É fazer vingar um sujeito, cuja pupila arquiva imagens do fora,
recusando-se a fazê-las coincidir consigo mesmo. É aprender a avançar
com a fatal coragem de não saber o que esperar dos encontros. É
desembarcar em terra firme, aos berros, sem saber no que isso vai dar,
apenas dobrando-se aos imponderáveis da existência.
Rolam entontecidos
pelo túnel como se estivessem expostos a um vento brincalhão que se
diverte em lhes virar pelo avesso, em soprar-lhes na alma espanto. O
vento e suas desorientadas acrobracias invade o espaço vida, inventa
um arrevesado sentido para a existência. Ao cabo da brincadeira as
crianças se sentem esgotadas e estranhamente revigoradas.
Uma casa (Nyumba- Kaya - Mia Couto)
A casa quarentena, isolada, isolante, lado a lado com uma outra, a
coletiva. Pátio aberto aos encontros entre dessemelhantes, que
não pretendem fundir-se numa família de iguais.22 Um aglomerado
vazado, de cômodos articulados, de entradas e saídas múltiplas. Uma
matéria viva compartilhando experiências com quem nela circule,
provendo a todos com uma espécie de manto que aninha sem sufocar.
Na casa de pai e mãe eu era órfão. E fugia de lá pelas rachaduras
da parede de meu quarto, pequenas brechas que me serviam de
passagem. Foi por ali que passei a vazar todas as noites, tramando
percursos que desarmassem a hegemonia das formas prontas.
(...) a casa, essa excêntrica máquina de cristalização de
afetos, produzindo catatonia coletiva.
ouve.
Houve um momento em que a casa começou a se desfigurar
completamente. Suspeitei. Pareceu-me menos inteiriça, menos
homogênea, menos contraída, mais fluida, gelatinosa até.
Eu nunca estive à procura de um território, mas de estados de
território, espaços que me fisgam pelo estranhamento de seus
volumes, formas, cores vivas, sua explícita plasticidade. E estou sempre
lá, operando nessa coordenada incerta, irreproduzível graficamente,
trafegando nesse espaço movente, silencioso, incapturável.
****
Uma vida vulnerável, enrodilhada de sensações. Que tipo de
existência pode advir de estados informes?
Que corpo suportaria tanto assédio?
Alguém que emprestasse sua carne à escuta da existência.
Um tipo andarilho, um freqüentador de quebradas, alguém disposto a
“fazer um perigo”, segundo Clarice Lispector. Um náufrago de si, que
teima em ancorar seus navios em terras devastadas.
%%%%%
É a poesia abrindo alas à estranheza. A instrução do poeta funciona
como um rito que prepara o ouvido a ser capaz de perder-se de si,
desnortear-se, consumir-se lentamente.
Caminho do caminhante
Biografia às avessas, que movimenta um núcleo nu de sujeito, que
cartografa seus espaços sempre desmontáveis: pessoa que nasce num
local qualquer, que renasce numa cidade ainda maior, e que se percebe
sempre outra, de um modo sempre diverso do anterior, que vai “se variando”
de destinação, porque recusa a biografia-destino, a biografiainformante
de um sujeito.
Projeta a vida numa arte da vadiagem a serviço das
experimentações. A viagem de “vários” espaço afora, saltando sempre
para novos inícios, incarnando um eu-feixe de sensações. “Tenho fome
de me tornar em tudo que não sou”
"Viver é uma ordem" (Drummond)
Em sua história pessoal decide trocar o
berço monológico por um ambiente polifônico, pulsante e vulnerável.
Ser Sendo
É preciso ser arrojado para se querer tornar em tudo o que não se é. É
preciso o esforço da torção para chegar a desconjuntar o sujeito que se
é, que se acostumou a ser. E poder aparecer diante de si mesmo
estranho, áspero, alquebrado, ambulante, um balaio de muitos.
“Para que alguma coisa ocorra,
é preciso criar um espaço vazio.”
( Peter Brook – A porta aberta)
Pensar não é se alinhar com o que já se conhece. É justamente o
contrário disso. Movido por uma espécie de força forasteira, que
não se interessa em refletir sobre a vida, mas agregar-lhe algo mais,
pensa-se o impensável. Isso exige de nós piruetas mortais e quase
nunca podemos contar com uma cama elástica que ampare as quedas.
Despenca-se, fraturam-se ossos. Não é nada fácil desmontar um campo
pronto de referências afixado na alma.
"Dai-nos, Senhor, a poesia de cada dia"
"Versos que vigiam a vida, expulsam o que se exalta e possa trazer
discordâncias, rupturas. Poema contrito, moderado. Experiência soft que
evita confrontos. Poema para vedar os ouvidos, cimentar os poros,
lacrar a alma.
(...)
Se alguém me perguntasse se a poesia salva, impede que alguém
prossiga reproduzindo valores modelares, eu não saberia
responder. Mas certamente eu diria que ela os confronta, os torna
inadequados, inventa saídas, nos encoraja a desprogramá-los."
Eu
Estou de pé em meu quarto, diante de um grande espelho oval.
Espécie de oráculo, a quem confio quem sou.
(...)
Dos vários sentidos que se possa atribuir ao espelho, podemos dizer
que hoje ele funciona prioritariamente como uma espécie de cabine de
vigilância, sob o comando de um eu que internalizou direitinho os
paradigmas indispensáveis ao bom funcionamento social.
É reconfortante possuir um eu que se incumbe de catalogar nossas imagens,
selecionando aquelas que possam ter maior aceitação social, que não atritem com os
referenciais dominantes, aos quais nos esforçamos em aderir.
Me diga: como você é? Sou introvertida, sensível, sonhadora. Sou...
O álbum de retratos desde muito cedo começa a existir na nossa vida.
Sob cada foto, breves legendas não só nos situam espaçotemporalmente
como também costumam fazer algum comentário sobre
nós. Em geral, nos configuram com inúmeras adjetivações. E lá vamos
nós arrastando um surrado pacote de atributos fixos em que, à força do
hábito, passamos a acreditar. Curiosamente, somos sempre ou “isso” ou
“aquilo”, aliás não só nós mesmos, mas tudo que existe à nossa volta, o
que nada nos exige, apenas respostas mecânicas, esquemáticas,
simplificadoras. É dessa forma que a vida faz sentido : eliminando
quaisquer variáveis.
Quebre o espelho e aspire o azar
Desalojada das formas em que se reconhecia, um discreto lamento
começa a assediá-la, mas finge não escutá-lo. Decide apegar-se com
fúria à urgência dessa nova vida, intensivamente frágil. Não lhe passa
pela cabeça rotulá-la. Prefere carregar consigo esse inominável estado
inédito. Prefere de agora em diante deixar a porta aberta.“(...) Não
sou mais eu mesmo como antes, fui arrebatado em um devir outro,
levado para além de meus Territórios existenciais familiares.”(Guattari, Caosmose,p.118)
Afinal, um sujeito anuncia que
vai nos revelar sua identidade, sua intimidade, seu eu, e acaba por se
dar conta de que está à procura de uma substância que não reside em
lugar algum. E que não existe um cá dentro, revestido de plácida
intimidade, protetor, e um lá fora que o ameaça constantemente com a
degradação de si. E o que se vê constituir-se na tela é exatamente o
contrário disso: presenciamos um alguém produzindo-se, confabulando
com o vivo, em permanente conexão com as paisagens do fora, capaz
de ser habitado por uma população estranha a si mesmo, um ativador
consciente de misturas tais que vai atraindo para si novas montagens
de existência. Trata-se de alguém em empenhada transformação.
Alguém aceso.
O espelho partiu-se. Eu não coincido mais com você, desgarrei-me,
quero me multiplicar.
Quanto a você, vai ter que aprender a nascer.
Nascer pelo meio
Intuir a urgência de se fabular um procedimento de investigação da
existência, que acolha nossos estranhamentos, nossos esgarçamentos identitários, nossos balbucios.
Brotar pelo meio é opor-se a um destino que progride em direção a
algo, é acariciar riscos, acumular êxitos e retumbantes fracassos,
é se infiltrar por alguma vizinhança, fazendo conexões, é povoar o
cotidiano de incertezas, é recolher-se numa tenda de silêncios, num
gesto de delicadeza diante do que está a se formar e maturar diante de
si. É fazer vingar um sujeito, cuja pupila arquiva imagens do fora,
recusando-se a fazê-las coincidir consigo mesmo. É aprender a avançar
com a fatal coragem de não saber o que esperar dos encontros. É
desembarcar em terra firme, aos berros, sem saber no que isso vai dar,
apenas dobrando-se aos imponderáveis da existência.
Rolam entontecidos
pelo túnel como se estivessem expostos a um vento brincalhão que se
diverte em lhes virar pelo avesso, em soprar-lhes na alma espanto. O
vento e suas desorientadas acrobracias invade o espaço vida, inventa
um arrevesado sentido para a existência. Ao cabo da brincadeira as
crianças se sentem esgotadas e estranhamente revigoradas.
Uma casa (Nyumba- Kaya - Mia Couto)
A casa quarentena, isolada, isolante, lado a lado com uma outra, a
coletiva. Pátio aberto aos encontros entre dessemelhantes, que
não pretendem fundir-se numa família de iguais.22 Um aglomerado
vazado, de cômodos articulados, de entradas e saídas múltiplas. Uma
matéria viva compartilhando experiências com quem nela circule,
provendo a todos com uma espécie de manto que aninha sem sufocar.
Na casa de pai e mãe eu era órfão. E fugia de lá pelas rachaduras
da parede de meu quarto, pequenas brechas que me serviam de
passagem. Foi por ali que passei a vazar todas as noites, tramando
percursos que desarmassem a hegemonia das formas prontas.
(...) a casa, essa excêntrica máquina de cristalização de
afetos, produzindo catatonia coletiva.
ouve.
Houve um momento em que a casa começou a se desfigurar
completamente. Suspeitei. Pareceu-me menos inteiriça, menos
homogênea, menos contraída, mais fluida, gelatinosa até.
Eu nunca estive à procura de um território, mas de estados de
território, espaços que me fisgam pelo estranhamento de seus
volumes, formas, cores vivas, sua explícita plasticidade. E estou sempre
lá, operando nessa coordenada incerta, irreproduzível graficamente,
trafegando nesse espaço movente, silencioso, incapturável.
****
Uma vida vulnerável, enrodilhada de sensações. Que tipo de
existência pode advir de estados informes?
Que corpo suportaria tanto assédio?
Alguém que emprestasse sua carne à escuta da existência.
Um tipo andarilho, um freqüentador de quebradas, alguém disposto a
“fazer um perigo”, segundo Clarice Lispector. Um náufrago de si, que
teima em ancorar seus navios em terras devastadas.
%%%%%
É a poesia abrindo alas à estranheza. A instrução do poeta funciona
como um rito que prepara o ouvido a ser capaz de perder-se de si,
desnortear-se, consumir-se lentamente.
Caminho do caminhante
Biografia às avessas, que movimenta um núcleo nu de sujeito, que
cartografa seus espaços sempre desmontáveis: pessoa que nasce num
local qualquer, que renasce numa cidade ainda maior, e que se percebe
sempre outra, de um modo sempre diverso do anterior, que vai “se variando”
de destinação, porque recusa a biografia-destino, a biografiainformante
de um sujeito.
Projeta a vida numa arte da vadiagem a serviço das
experimentações. A viagem de “vários” espaço afora, saltando sempre
para novos inícios, incarnando um eu-feixe de sensações. “Tenho fome
de me tornar em tudo que não sou”
"Viver é uma ordem" (Drummond)
Em sua história pessoal decide trocar o
berço monológico por um ambiente polifônico, pulsante e vulnerável.
Ser Sendo
É preciso ser arrojado para se querer tornar em tudo o que não se é. É
preciso o esforço da torção para chegar a desconjuntar o sujeito que se
é, que se acostumou a ser. E poder aparecer diante de si mesmo
estranho, áspero, alquebrado, ambulante, um balaio de muitos.
“Para que alguma coisa ocorra,
é preciso criar um espaço vazio.”
( Peter Brook – A porta aberta)
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
Conceito de Cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural
Quando começei a ler esse texto, achei um porre... Pensava que era mais uma daquelas acadêmicas que endossam seu monte de blablablá com etimologias, discurso de competência e principalmente aquelas conversas fora da realidade, pra "boi dormir".
Mas conforme fui lendo melhor, passando pelas páginas, pude perceber que que a moça é boa. Sim ela realmente se posiciona no texto, se eu concordei ou não, sei lá, isso nem interessa, mas que o texto fica delicioso e te põe para refletir: isso é que importa!
Ah, sinto informar: o final do texto é chato!
Conceito de Cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural e a preservação. Waldisa Russio Camargo Guarnieri.
Fato museológico "é a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem também pertence e sobre a qual tem o poder de agir."
A informação passada pelo museu facilita a ação transformadora do Homem. (isso é que espero)
O Museu
Essa instituição não implica em reconhecimento apenas por quem o cria e implanta ou pelo sistema e órgãos do Poder, mas sobretudo, no reconhecimento público. Pelo simples fato de que temos feito museus PARA a comunidade e não COM A COMUNIDADE, temos "quistos de coleções" e não, necessariamente, estabelecemos museológicos reconhecidos pela comunidade ( " a que se destinam", na frase gasta do discurso competente)
O homem é o ser que se realiza criticamente, historicamente; ao realizar-se, ele constróe sua História e faz sua Cultura. O existir do Homem, seu viver, está relacionado com seu pensamento e ação, com sua produção, seu trabalho. O homem é um animal que trabalha mesmo quando brinca, porque age conscientemente (ou com a possibilidade do exercício consciente) e decide, por ação ou omissão, o seu destino.
Enquanto indaga: conhece, constrói... E ao construir a História, ele age, ele modifica. Cria beleza, tece relações humanas, faz sua Cultura...
Assim, a Cultura do Homem compreende suas ideias, valores, seu imaginário, sua criação intelectual ou intelectual e material.
Para o museólogo o conceito de cultura com que ele opera é o mais simples de todos: cultura é o fazer e o viver cotidiano: cultura é o trabalho do homem em todas as suas manifestações e aspectos, cultura é a relação do homem com seu meio, com os outros seres.
A preservação do patrimônio cultural é um ato político e temos de assumi-lo como tal, mesmo nas nossas áreas específicas de atuação profissional.
Indagações (que são as minhas)
Esse patrimônio é resultado da valorização de uma elite ou de uma eleição por parte de camadas e segmentos significativos da comunidade e da sociedade?
Uma sociedade que privilegia, em sua preservação, o patrimônio imobiliário não poderá, mais do que estar valorizando técnicas construtivas ou testemunhos arquitetônicos, estar se preocupando priorotariamente ou apenas com os aspectos econômicos dos chamados "bens de raiz"? (não sei se concordo plenamente com isso, acho que tem o lance do estilo, da arte na arquitetura também, além do esquema perverso)
Uma sociedade que esquece o patrimônio constituído pelos bens móveis produzidos pelo Homem, não estará instilando (persuadindo) sutilmente a substituição do valor da produção humana pelo valor de consumo, o fazer pelo possuir, o que, de alguma maneira, não estaria contribuindo para maior alienação do homem?
Mas conforme fui lendo melhor, passando pelas páginas, pude perceber que que a moça é boa. Sim ela realmente se posiciona no texto, se eu concordei ou não, sei lá, isso nem interessa, mas que o texto fica delicioso e te põe para refletir: isso é que importa!
Ah, sinto informar: o final do texto é chato!
Conceito de Cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural e a preservação. Waldisa Russio Camargo Guarnieri.
Fato museológico "é a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem também pertence e sobre a qual tem o poder de agir."
A informação passada pelo museu facilita a ação transformadora do Homem. (isso é que espero)
O Museu
Essa instituição não implica em reconhecimento apenas por quem o cria e implanta ou pelo sistema e órgãos do Poder, mas sobretudo, no reconhecimento público. Pelo simples fato de que temos feito museus PARA a comunidade e não COM A COMUNIDADE, temos "quistos de coleções" e não, necessariamente, estabelecemos museológicos reconhecidos pela comunidade ( " a que se destinam", na frase gasta do discurso competente)
O homem é o ser que se realiza criticamente, historicamente; ao realizar-se, ele constróe sua História e faz sua Cultura. O existir do Homem, seu viver, está relacionado com seu pensamento e ação, com sua produção, seu trabalho. O homem é um animal que trabalha mesmo quando brinca, porque age conscientemente (ou com a possibilidade do exercício consciente) e decide, por ação ou omissão, o seu destino.
Enquanto indaga: conhece, constrói... E ao construir a História, ele age, ele modifica. Cria beleza, tece relações humanas, faz sua Cultura...
Assim, a Cultura do Homem compreende suas ideias, valores, seu imaginário, sua criação intelectual ou intelectual e material.
Para o museólogo o conceito de cultura com que ele opera é o mais simples de todos: cultura é o fazer e o viver cotidiano: cultura é o trabalho do homem em todas as suas manifestações e aspectos, cultura é a relação do homem com seu meio, com os outros seres.
A preservação do patrimônio cultural é um ato político e temos de assumi-lo como tal, mesmo nas nossas áreas específicas de atuação profissional.
Indagações (que são as minhas)
Esse patrimônio é resultado da valorização de uma elite ou de uma eleição por parte de camadas e segmentos significativos da comunidade e da sociedade?
Uma sociedade que privilegia, em sua preservação, o patrimônio imobiliário não poderá, mais do que estar valorizando técnicas construtivas ou testemunhos arquitetônicos, estar se preocupando priorotariamente ou apenas com os aspectos econômicos dos chamados "bens de raiz"? (não sei se concordo plenamente com isso, acho que tem o lance do estilo, da arte na arquitetura também, além do esquema perverso)
Uma sociedade que esquece o patrimônio constituído pelos bens móveis produzidos pelo Homem, não estará instilando (persuadindo) sutilmente a substituição do valor da produção humana pelo valor de consumo, o fazer pelo possuir, o que, de alguma maneira, não estaria contribuindo para maior alienação do homem?
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