segunda-feira, 5 de março de 2012

Homens em busca de nova identidade

Homens em busca de nova identidade
Grupos pelos direitos masculinos cobram equilíbrio
no divórcio e mais tempo para a paternidade

Pedro Doria
Entre 1949, quando saiu o primeiro livro de teoria feminista, O Segundo Sexo, e hoje, muito mudou. “Não foram as mulheres que puseram os valores femininos em oposição aos masculinos”, escreveu na época Simone de Beauvoir. “Foram os homens que o fizeram para manter suas prerrogativas.” O que era uma idéia revolucionária, a da opressão masculina, se espalhou e se firmou. Mas, se a idéia de mulher mudou, assim como as posições que ocupam, pouco se discutiu o homem.

Os problemas masculinos não têm nada de vagos. É freqüente em grandes empresas que, quando a mulher é funcionária, seu marido não tenha direito a seguro saúde. Na paternidade, em muitos países, eles não podem ficar em casa com o recém-nascido; quando podem, é por quase nada de tempo. No divórcio, quem (quase sempre) se vê afastado dos filhos é o pai. Nas guerras - são umas dez por década -, são eles que vão para o front. Na violência urbana, homens não são apenas os causadores, são também as vítimas. Por conta da dupla jornada, as mulheres ganharam o direito de se aposentar mais cedo. Mas são os homens que morrem antes. Como se acidentam no serviço muito mais que mulheres.

Em alguns países, o debate sobre direitos do homem - com minúsculo, homem enquanto gênero - é recente, mas está avançando. É o caso, nas Américas, do Canadá; na Europa, principalmente dos países nórdicos. Na Inglaterra, um grupo de pais conseguiu atrair a atenção para seus problemas, um escalando o Palácio de Buckingham vestido de Batman, outro, a Torre de Londres, como Homem-Aranha. A reforma da legislação britânica em curso busca fazer com que, nos casos de separação, os filhos fiquem em proporções de tempo tão iguais quanto possível com pai e com mãe. Não é que a mãe seja vista como menos importante do que já foi. Só que o pai também é.

Na América Latina tudo é mais difícil - culpa da latinidade, dizem os estudiosos. “Não discutimos homens”, lamenta o psicólogo Sócrates Nolasco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “A reflexão mais sistematizada vem timidamente.” Para ele, quando há discussão, ela é filtrada pela ótica feminista. Quase sempre.

As mudanças são reais, mas recentes. Que havia um espírito novo no ar já se percebia, embora de forma muito incipiente, quando A Mística Feminina, de Betty Friedan, chegou às livrarias americanas, em 1963. Bem escrito, fluente, claro - preciso. Friedan escrevia para mulheres de classe média que, à noite, louça lavada, filhos dormindo, marido ao jornal, buscavam aflitas calar a dúvida que as perturbava: “A vida é só isto?” Não era - e, para muitas, deixou de ser.

“Mas a transformação que queriam é esta?” - Nolasco é quem pergunta. Condoleezza Rice é secretária de Estado dos EUA, Margaret Thatcher foi premiê britânica, há executivas espalhando-se pelas empresas. Se o mundo mudou ao aceitá-las com mais freqüência, elas não mudaram o mundo. “As regras continuam as mesmas, a agressividade da vida não mudou, nada ficou mais suave”, teoriza Nolasco, para quem a promessa de que a maior participação de mulheres faça diferença na dureza cotidiana permanece, afinal, promessa.

Com o fortalecimento do feminismo, outros movimentos em defesa de minorias cresceram: de negros, de gays. É um mundo de ONGs. “O Estado se desincumbiu de levantar as questões do desequilíbrio”, observa o professor. “E a sociedade civil não tomou a questão dos homens. Ser homem, branco e heterossexual, hoje, é demérito, é ser minoria.” Em 63, Friedan observava que menos de um terço das vagas universitárias eram ocupadas por mulheres. Hoje, elas são maioria. São mais bem educadas - têm, no Brasil, em média, ano e meio mais de ensino formal que os homens. O menino, a família o põe para trabalhar mais cedo.

Simone de Beauvoir sugeria que a mulher não nasce mulher - ela é feita mulher de acordo com pressões externas, culturais. “O abismo que separa o rapaz adolescente da moça foi aumentado deliberadamente desde sua mais tenra infância; as mulheres crescem para que sejam aquilo que fizeram delas.” Não é que estivesse errada. A pesquisa do antropólogo americano David Gilmore, da Universidade Estadual de Nova York, confirma em campo o que, para Beauvoir, vinha de observação. Só que confirma o oposto também, citando o escritor Norman Mailer: “Ninguém nasce homem; hombridade se conquista.”

Em quase todas as culturas, desde muito pequenos, os meninos são instados a “virar homens”. A agressividade é cultivada por pais e mães, um reflexo natural para defender de bicho a tribo, para arar a terra, para no bom desempenho conquistar a moça bonita. Uma marca cultural profunda, mas não para oprimir o sexo oposto. É agressividade que nasce, bem pelo contrário, do sacrifício em defesa da família. Estão, homem e mulher, juntos na mesma espécie. E, em lugares onde não há ameaças freqüentes, coisa rara no planeta, o menino não ouve desde pequeno que tem de ser homem. É o caso do Taiti.

“É claro que o homem perdeu com o movimento feminista.” Quem afirma é Fernando Seffner, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um dos poucos que, como Nolasco, estudam o lugar do homem. “Onde antes ele concorria com outros seis sujeitos por um emprego, hoje ele encontra mais dez mulheres na disputa.” Mas as mulheres também perderam. Territórios que há algumas décadas eram iminentemente masculinos já não são mais. Elas fumam como não fumavam - então passaram a ter câncer de pulmão. Trabalham em escritórios, agüentam pressão pesada, convivem com stress: aumenta o número de infartos. Presentes em novos espaços, estão morrendo mais pela violência das cidades.

“O homem que perde é principalmente o machista, aquele que tem dificuldade de lidar com esta negociação com as mulheres.” Para o professor gaúcho, este é o que bate, o responsável por mais de 80% dos casos de violência doméstica. Seu perfil cada vez menos é pobre. Está espalhado por todas as faixas de renda. Homem também é surrado em casa. Mas, assim como a mulher não prestava queixa antes de ter sua própria delegacia, marido não costuma avisar ao escrivão que apanhou. “Não gosto de chamar de crise da masculinidade”, diz Seffner. “Porque, sabe, o que a gente tem aqui é uma crise nas relações de gênero. Alguns homens vivem isso como uma crise pessoal, não é.” Que os homens estavam sendo alienados da discussão era o que sugeria Betty Friedan, nos anos 1980.

“Você vê na França, hoje: há uma guerra aberta” - é Nolasco quem diz. “O movimento de homens está dizendo para as feministas ‘vocês querem ferrar com a gente’. Se continuar o discurso do opressor, se para discutir o homem continuarmos sempre vendo pelo feminismo, não haverá avanço. Ficou uma coisa de questões pequenas, o movimento não tem mais aquele vigor das sufragistas de 80 anos atrás. Precisamos inaugurar uma nova discussão, não é quem oprime quem. Temos que reinventar a maneira de lidarmos com poder e com trabalho, é isso que oprime. Nisso, as mulheres, quando chegaram ao poder, não mexeram.”

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"Os desiludidos seguem iludidos, sem coração, sem tripas, sem amor" Carlos Drumond de Andrade

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A nova paisagem sonora

IN: O ouvido pensante, Murray Schafer

A nova paisagem sonora

Sim, mas isso é música?

Música: Arte de combinar sons visando à beleza da forma e a expressão das emoções; os sons assim produzidos; som agradável, por exemplo o canto de um pássaro, o murmúrio de um riacho, o latido de cães. (The Concise English Dictionary)

p.120

- "(...) não se pode ter uma definição que não inclua todos os objetos ou atividades de sua categoria"

- " Quando John Cage abre a porta da sala de concerto e encoraja os ruídos da rua a atravessar suas composições, ele ventila a arte da música com conceitos novos e aparentemente sem forma."

Schafer escreveu a Cage e pediu uma definição de música. Sua resposta:

" Música é sons, sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora de salas de concerto" - veja Thoreau

- "A referência é ao Walden de Thoreau, em que o autor descobre um inesgotável entretenimento nos sons e visões da natureza.

- "(...) Pouco a pouco, no decorrer do século XX, todas as definições convencionais de música vêm sendo desacreditadas pelas abundantes atividades dos próprios músicos."

p.121

- "Primeiro, com a tremenda expansão dos instrumentos de percussão em nossas orquestras ( produzem sons arrítmicos e sem altura definida) (...)"

- " Hoje todos os sons pertencem a um campo contínuo de possibilidades, situado dentro do domínio abrangente da música."

- "Eis a nova orquestra: o universo sônico"

- " (...) os educadores musicais são os guardiões da teoria e prática da música. E toda a natureza dessa teoria e prática terá que sr inteiramente reconsiderada"

p.123

- Um dos propósitos desta parte do livro é dirigir os ouvidos dos ouvintes para a nova paisagem sonora da vida contemporânea e familiarizá-los com um vocabulário de sons que se pode esperar ouvir, tanto de dentro como fora das salas de concerto. Pode ser que os ouvintes não gostem de todos os sons dessa nova música, e isso também será bom. Pois, juntamente com outras formas de poluição, o esgoto sonoro de nosso ambiente contemporâneo não tem precedentes na história humana."

p.124

O Ambiente Sônico

- "Qualquer coisa que se mova, em nosso mundo, vibra o ar."

- "Caso ela se mova de modo a oscilar mais de dezesseis vezes por segundo, esse movimento é ouvido como som. O mundo então está cheio de sons. Ouça"

- "Sente-se em silêncio por um momento e receba os sons"


p.125


- " Se a nova orquestra sonora é o universo sônico, como diferenciarmos os instrumentos? Como poderíamos escrever a biografia completa de um passo, de modo a sabermos que era a história do seu passo e não do meu?"
Uma garota decidida foi até a esquina no sábado e tentou elaborar uma notação descritiva para os diferentes pés dos passantes. Ela observou e ouviu a coreografia dos pés e anotou o tamanho do sapato ou bota; a altura de seu passo, agudo ou grave; o timbre de seu som, metálico, arrastado ou pesado; e o tempo de seu movimento, desde o ágil tique-taque dos saltos pontiagudos até o abafado arrastar de pés errantes"

- "Os sons da orquestra universal são infinitamente variados"

- "Os sons ouvidos podiam ser divididos em sons produzidos pela natureza, por seres humanos e por engenhocas elétricas ou mecânicas."

- "Será que as pessoas escutam os mesmos sons que escutamos hoje?"

Estudo comparativo em documentos históricos para listar os sons contidos neles. Foram:

- A Batalha entre o Carnaval e a Quaresma de Pieter Brueguel. Apresenta sons de uma paisagem urbana holandesa do século XVI.



- Trecho de um romance de Arnold Bennet e nos apresentou os sons de uma cidade industrial do norte da Inglaterra no século XIX.

- Aldeia indígena norte-americana

- Uma cena bíblica, etc



domingo, 13 de novembro de 2011

Os animais haviam partido

http://www.youtube.com/watch?v=1DJaPxJKhYU



Acordei e, pela primeira vez
Os animais tinham ido embora
Deixou essa casa vazia agora
Não tenho certeza se é o meu lugar
Ontem você me pediu
Para te escrever uma música agradável
Vou fazer o meu melhor agora
Mas você se foi por tanto tempo

A janela está aberta agora
E o inverno se estabelece
A gente chama isso de Natal
Quando as propagandas começam
Eu amo sua depressão
E amo sua dupla personalidade
Eu amo quase tudo
O que você tem a oferecer

Oh, eu sei é que eu te deixei
Em lugares de desespero
Oh, eu sei que te amo
Então, por favor, jogue suas tranças pra baixo

À noite eu viajo sem você
E espero não acordar
Porque acordar sem você
É como beber de uma xícara vazia

Acordei e, pela primeira vez,
Os animais tinham ido embora
Nossos relógios estão "tique-taqueando"
Então antes de nosso tempo acabar
Nós poderíamos arranjar uma casa e algumas caixas na grama
Nós poderíamos fazer bebês e músicas acidentais

Eu sei que fui um mentiroso
E sei que fui um tolo
Espero que não tenhamos terminado
Mas estou feliz de termos quebrado as regras
Minha cova está profunda agora
Mas sua luz ainda está brilhando
Eu cubro meus olhos
Ainda tudo o que eu vejo é você

Oh, eu sei é que eu te deixei
Em lugares de desespero
Oh, eu sei que te amo
Então, por favor, jogue suas tranças pra baixo

À noite eu viajo sem você
E espero não acordar
Pois acordar sem você
É como beber de uma xícara vazia

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Educadores de Museus

As pessoas que trabalham no setor educativo de museus são EDUCADORES.
Alguns termos me irrita profundamente como hoje vou fazer MONITORIA. Ou alguém que me pergunta "você é o MONITOR?". Quer me deixar com raiva nas veias e sangue escoando pelo meu ventre é dizer: "Gente, presta atenção na GUIA".

Como todos esses termos existem e eu fico demasiadamente incomodada quando as pessoas confundem, resolvi esclarecer, partindo de uma texto:

Educação em Museus: termos que revelam preconceitos. Ana Mae Barbosa 

EDUCADORES: Geralmente são formados em Universidades nos cursos de História, de Arte, de Educação, de Filosofia, de Letras e de Comunicação, enfim. Eles são educadores, pois tratam de ampliar a relação entre museu e público, ou melhor são mediadores entre a obra de arte e o público

MONITOR: É quem ajuda um professor na sala ou que veicula a imagem no HD, no caso dos computadores. Falta de autonomia e de poder próprio.

VISITA GUIADA: Outro termo preconceituoso. Pressupõe a cegueira do público e a ignorância total. Ante foi utilizado Visita dialogada (melhor!). O visitante pensa que não vai se comprometer, vai só ouvir. O termo também não é adequado (visita dialogada) pois como depende do outro para a conversa, pode amedrontar o visitante.

Se você quer ficar sozinho dentro do museu, é possível. Pode ser um momento entre você e a confortante obra de arte.

Mas se você quer conversar, chama um educador para juntos, verem a exposição, trocarem ideias e sensações e informações sobre a exposição.

CURADORIA EDUCATIVA: É usado pra dissimular o preconceito. É usado para quem organiza cursos, seminários, etc.

Bom, na realidade sou uma espécie de professora também. Não entendo o porque, nós de museus, temos um "repelimento" da educação, se somos formados pelas mesmas instituições e pela mesma pedagogia que se formam os professores. Tá certo que não carregamos conteúdos, não damos provas para avaliar e nem temos planos de aula a seguir. Partimos do outro, das referências do outro para iniciarmos nosso diálogo. Perguntamos mais, ouvimos mais e trabalhamos no improviso (lembremos: só improvisa quem domina o assunto, é igual música, teatro, enfim.)

"O desprezo pela educação que caracteriza as entidades culturais de elite é ainda maior quando essa entidade se dedica à arte, especialmente às artes plásticas. Parece que, em se tratando de arte, quanto mais protegê-la da contaminação com educação, mais valiosa será."

O museu é um lugar de elite e não está disposto a mudar sua posição. Diz que arte não se ensina. "Sejamos radicais: nada se ensina, tudo se aprender, depende do diálogo, depende do diálogo da interlocução, da intermediação, da necessidade e do interesse.

Na cultura artística brasileira, educação é considerada sinônimo de mediocridade. (...) Acredito que foi a ação repressora da ditadura e os baixos salários que criminalizaram a educação no Brasil.




    

domingo, 6 de novembro de 2011

Hiroshima, mon amour

Sempre escrevo sobre os textos que leio. Havia me esquecido que amo cinema e o quanto me faz bem "ver"...
Cada dia da minha existencia noto manias que cultivo. Dessa vez percebi que gosto de pausar o filme, como um click de fotografia... Gosto de compor a televisão. Deixo um tempo pausado e observo a tela, como se olhasse para um quadro no museu ou como se estivesse atrás de uma câmera, pronta para dar o "click".
Outra coisa que adoro fazer é escrever as frases que me toca.

Nunca havia assistido Hiroshima, mon amour. Apesar do DVD ficar pulando (isso me deixou irritadissíma) me sensibilizei com o filme.

Controlamos a memória e não controlamos o esquecimento. A gente simplesmente esqueci. O tempo não cura, o tempo mata. Afasta a presença e embaça a visão. "É um dos deuses mais lindos??". Não, definitivamente, o tempo não é um deus. O tempo é o diabo!

Como eu estou com medo de esquecer e me apavoro de pensar que vou ser esquecida.

Filme:
É um filme de amor. Uma atriz francesa vai para o Japão, especificamente em Hiroshima para fazer um filme sobre paz. As cenas pós bomba atômica são muito fortes.
Lá ela conhece um arquiteto japonês, do qual eles se aproximam intimamente encontrando o amor. Acontece que ambos moram longe e são casados. O pouquissimo tempo que eles se conhecem e que terão tempo para se conhecer não seria suficiente. Sendo assim ele elege um ponto da vida dela para ela lhe contar. Ela escolhe sua juventude, seus 20 anos na cidade de Nevers, na França, quando ela se apaixona loucamente por um soldado alemão morto em seus braços.

E assim começa o filme...

"Como você, escolhi ter uma memória de sombras, de pedras.
Lutei por conta própria, com todas as forças contra o horror de não entender o porquê dessa lembrança.
Com você, eu esqueci.

Por que negar a evidente necessidade da memória?

Eu encontro você
Lembro me de você
Quem é você

Você está me matando. Você me faz bem.
Como eu poderia imaginar que essa cidade foi feita para o amor?
E que você foi feito na medida do meu corpo?
Eu gosto de você.
Que maravilha!
Que lentidão, tão repentina.
Que doçura!
Você está me matando. Você me faz bem.

"você é como mil mulheres juntas. Você me dá muita vontade de amar."

Agora só falta matar o tempo que nos separa.

É preciso evitar pensar nas dificuldades que o mundo nos apresenta algumas vezes.
Senão, ele se tornaria irrespirável.
Afaste-se de mim!

Eu tinha fome.
Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer.

 Como com ele, o esquecimento começará por seus olhos.
Igual.
Depois, como com ele, sua voz será esquecida.
Igual.
Depois, como com ele... ele abrangerá você inteiro pouco a pouco.
Você se tornará uma canção."



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Rumores Discretos da Subjetividade.

Sinto-me feliz por encontrar esse texto.

Rumores Discretos da Subjetividade. Rosana Preciosa

E escrevo. Por que escrevo?

"Escrever para se desintoxicar, sucatear idéias, muitas vezes entrar
numa fria e malograr. Para aprender a tensionar o discurso e
desmanchar-se em lágrimas, sem que o gesto pareça sentimental. Para
recepcionar um corpo sofrido que pede socorro e espaço para viver.
Para quase se afogar e se virar nadando cachorrinho. Para abandonar o
hábito de ser. Para escorchar a pele e com ela confeccionar um manto
de memórias editáveis. Para azucrinar o ego e seu pegajoso cortejo de
arrogâncias. Para desaprender a reprovar a vida, essa nossa insistente
mania de desqualificá-la. Para se desvencilhar da idéia de que a vida
nos reserva um propósito, e cabe a cada um de nós desvendá-la. Para
aprender a rugir para o que é pesado e instituído. Para desatolar a 
subjetividade das formas acabadas. Para ser pega em “flagrante delito
de fabular”. p. 10

Assim costumam ser os meus textos: fragmentados

"(...) pensamentos fragmentários não asseguram àquele
que lê a exposição clara de um percurso teórico, de um sítio de onde se
parte.

(...)
Entretanto, se acolhido, o fragmento pode nos surpreender. De um jeito
anfíbio, ele é capaz de operar simultaneamente uma inteireza de
articulações, combinada a uma resistência a sistematizações.

Infinitos são os fios que vão arrebentando ao longo das vias expressas
de nossa existência e que temos que re-amarrar. Porém com a extrema
delicadeza de não emboçar as fissuras, apagando as marcas de
experiências que nos são vitais, porque não nos deixam mais retornar
ao que éramos antes.

O fragmento recolhe com simpatia nossas ninharias, falhas,
contradições, disparates. Enfim, tudo que de residual a vida emana.

A escritura fragmentária, organizada em torno de idéias-palavras,
atadas entre si por um elo de sutil afinidade, é um buquê de formas que
não forjam nem um destino textual, sequer um destino subjetivo. Ao
contrário, incorpora sem culpa a “doida poligrafia”(Roland Barthes)
de uma caderneta de apontamentos solta em campo."

Um conselho para esse momento dramático em que vivo

Desmaiar o eu para que um
funcionamento apareça e aceite com espanto o inominável. “(...) sim,
acontece-me e ainda acontecerá esquecer quem sou e evoluir diante de
mim à maneira de um estranho”(Breckett). Franqueia-se a faculdade da
invenção.
São os meus: Esquizilda, Bestacel, Esquisitofrenico, En-Túlio, enfim, minhas aliterações

“Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a
beleza das frases, mas a doença delas.(...) Gostar de fazer defeitos na
frase é muito saudável(...)”(Manuel de Barros). Trair a língua é forçá-la a compassar com
a palpitação do corpo que escreve. Inseminar tal euforia que a faça
entortar, que a deixe fanha, gaga."

Os sons do corpo, a música nata

"Um corpo abriga sons para serem ouvidos. Nele transitam
cadências para serem experimentadas. É dessa doida bioquímica
de sons e ritmos que somos feitos. Mas vivemos moucos e arrítmicos.
Desfazer-se desse coágulo é reinvestir no som que jorra forte da
garganta, que molda outra linguagem, outro jeito de corpo. Cada
emissão acompanhando-se de modulações que agitam os diagramas do
pensamento. Reintrosados, som e ritmo, o corpo transido afeiçoa-se a
cada meandro seu. Invoca para si outra estatura. Reapossa-se de sua
carne antes descorada e flácida, agora belamente encarnada."

Pensamento viaja..... 
Pensamentos traçam um caminho de vento.  (...) 
Ninguém é proprietário de um pensamento. Eles nos adotam, sopram
forte em nós, nos assediam no banho, no bar, numa caminhada matinal.
É exatamente nessas horas, em que não dispomos de meios para anotálos,
que eles levantam o vôo mais alto, nos intimam a seguir suas
doidas pistas e vão nos forçando a recriar nossos passos, a desejar
outras topografias na nossa existência.
Conectar-se às forças caóticas da vida, que contagiam o pensamento,
exige coragem de se libertar de um modelo profissional de seu exercício.
Um modo de conhecimento escoltado por um saber formal, capaz de
articular discursos competentes e desonestos do ponto de vista
existencial. Varrem-se as incertezas, isolam-se as idéias estranhas,
inclassificáveis, evita-se qualquer sensação de desamparo. Enxota-se a
vida para o outro lado da calçada, procurando neutralizar os percalços
que significa viver. Faz-se de tudo para não desalinhar o cotidiano.

Pensar não é se alinhar com o que já se conhece. É justamente o
contrário disso. Movido por uma espécie de força forasteira, que
não se interessa em refletir sobre a vida, mas agregar-lhe algo mais,
pensa-se o impensável. Isso exige de nós piruetas mortais e quase
nunca podemos contar com uma cama elástica que ampare as quedas.
Despenca-se, fraturam-se ossos. Não é nada fácil desmontar um campo
pronto de referências afixado na alma.


 "Dai-nos, Senhor, a poesia de cada dia"

"Versos que vigiam a vida, expulsam o que se exalta e possa trazer
discordâncias, rupturas. Poema contrito, moderado. Experiência soft que
evita confrontos. Poema para vedar os ouvidos, cimentar os poros,
lacrar a alma.

(...) 
Se alguém me perguntasse se a poesia salva, impede que alguém
prossiga reproduzindo valores modelares, eu não saberia
responder. Mas certamente eu diria que ela os confronta, os torna
inadequados, inventa saídas, nos encoraja a desprogramá-los."



Eu


Estou de pé em meu quarto, diante de um grande espelho oval.
Espécie de oráculo, a quem confio quem sou.

(...)

Dos vários sentidos que se possa atribuir ao espelho, podemos dizer
que hoje ele funciona prioritariamente como uma espécie de cabine de
vigilância, sob o comando de um eu que internalizou direitinho os
paradigmas indispensáveis ao bom funcionamento social.



É reconfortante possuir um eu que se incumbe de catalogar nossas imagens, 
selecionando aquelas que possam ter maior aceitação social, que não atritem com os
referenciais dominantes, aos quais nos esforçamos em aderir.



Me diga: como você é? Sou introvertida, sensível, sonhadora. Sou...
O álbum de retratos desde muito cedo começa a existir na nossa vida.
Sob cada foto, breves legendas não só nos situam espaçotemporalmente
como também costumam fazer algum comentário sobre
nós. Em geral, nos configuram com inúmeras adjetivações. E lá vamos
nós arrastando um surrado pacote de atributos fixos em que, à força do
hábito, passamos a acreditar. Curiosamente, somos sempre ou “isso” ou
“aquilo”, aliás não só nós mesmos, mas tudo que existe à nossa volta, o
que nada nos exige, apenas respostas mecânicas, esquemáticas,
simplificadoras. É dessa forma que a vida faz sentido : eliminando
quaisquer variáveis.


Quebre o espelho e aspire o azar


Desalojada das formas em que se reconhecia, um discreto lamento
começa a assediá-la, mas finge não escutá-lo. Decide apegar-se com
fúria à urgência dessa nova vida, intensivamente frágil. Não lhe passa
pela cabeça rotulá-la. Prefere carregar consigo esse inominável estado
inédito. Prefere de agora em diante deixar a porta aberta.“(...) Não
sou mais eu mesmo como antes, fui arrebatado em um devir outro,
levado para além de meus Territórios existenciais familiares.”(Guattari, Caosmose,p.118)


Afinal, um sujeito anuncia que
vai nos revelar sua identidade, sua intimidade, seu eu, e acaba por se
dar conta de que está à procura de uma substância que não reside em
lugar algum. E que não existe um cá dentro, revestido de plácida
intimidade, protetor, e um lá fora que o ameaça constantemente com a
degradação de si. E o que se vê constituir-se na tela é exatamente o
contrário disso: presenciamos um alguém produzindo-se, confabulando
com o vivo, em permanente conexão com as paisagens do fora, capaz
de ser habitado por uma população estranha a si mesmo, um ativador
consciente de misturas tais que vai atraindo para si novas montagens
de existência. Trata-se de alguém em empenhada transformação.
Alguém aceso.
 

O espelho partiu-se. Eu não coincido mais com você, desgarrei-me,
quero me multiplicar.

Quanto a você, vai ter que aprender a nascer.

Nascer pelo meio

Intuir a urgência de se fabular um procedimento de investigação da
existência, que acolha nossos estranhamentos, nossos esgarçamentos identitários, nossos balbucios.


Brotar pelo meio é opor-se a um destino que progride em direção a
algo, é acariciar riscos, acumular êxitos e retumbantes fracassos,
é se infiltrar por alguma vizinhança, fazendo conexões, é povoar o
cotidiano de incertezas, é recolher-se numa tenda de silêncios, num
gesto de delicadeza diante do que está a se formar e maturar diante de
si. É fazer vingar um sujeito, cuja pupila arquiva imagens do fora,
recusando-se a fazê-las coincidir consigo mesmo. É aprender a avançar
com a fatal coragem de não saber o que esperar dos encontros. É
desembarcar em terra firme, aos berros, sem saber no que isso vai dar,
apenas dobrando-se aos imponderáveis da existência.




Rolam entontecidos
pelo túnel como se estivessem expostos a um vento brincalhão que se
diverte em lhes virar pelo avesso, em soprar-lhes na alma espanto. O
vento e suas desorientadas acrobracias invade o espaço vida, inventa
um arrevesado sentido para a existência. Ao cabo da brincadeira as
crianças se sentem esgotadas e estranhamente revigoradas.
 

Uma casa (Nyumba- Kaya - Mia Couto)


A casa quarentena, isolada, isolante, lado a lado com uma outra, a
coletiva. Pátio aberto aos encontros entre dessemelhantes, que
não pretendem fundir-se numa família de iguais.22 Um aglomerado
vazado, de cômodos articulados, de entradas e saídas múltiplas. Uma
matéria viva compartilhando experiências com quem nela circule,
provendo a todos com uma espécie de manto que aninha sem sufocar.



Na casa de pai e mãe eu era órfão. E fugia de lá pelas rachaduras
da parede de meu quarto, pequenas brechas que me serviam de
passagem. Foi por ali que passei a vazar todas as noites, tramando
percursos que desarmassem a hegemonia das formas prontas.



(...) a casa, essa excêntrica máquina de cristalização de
afetos, produzindo catatonia coletiva.
ouve.



Houve um momento em que a casa começou a se desfigurar
completamente. Suspeitei. Pareceu-me menos inteiriça, menos
homogênea, menos contraída, mais fluida, gelatinosa até.



Eu nunca estive à procura de um território, mas de estados de
território, espaços que me fisgam pelo estranhamento de seus
volumes, formas, cores vivas, sua explícita plasticidade. E estou sempre
lá, operando nessa coordenada incerta, irreproduzível graficamente,
trafegando nesse espaço movente, silencioso, incapturável.



****

Uma vida vulnerável, enrodilhada de sensações. Que tipo de
existência pode advir de estados informes?



Que corpo suportaria tanto assédio?


Alguém que emprestasse sua carne à escuta da existência.
Um tipo andarilho, um freqüentador de quebradas, alguém disposto a
“fazer um perigo”, segundo Clarice Lispector. Um náufrago de si, que
teima em ancorar seus navios em terras devastadas.



%%%%%


É a poesia abrindo alas à estranheza. A instrução do poeta funciona
como um rito que prepara o ouvido a ser capaz de perder-se de si,
desnortear-se, consumir-se lentamente.



Caminho do caminhante
 
Biografia às avessas, que movimenta um núcleo nu de sujeito, que
cartografa seus espaços sempre desmontáveis: pessoa que nasce num
local qualquer, que renasce numa cidade ainda maior, e que se percebe
sempre outra, de um modo sempre diverso do anterior, que vai “se variando”

de destinação, porque recusa a biografia-destino, a biografiainformante
de um sujeito.



Projeta a vida numa arte da vadiagem a serviço das
experimentações. A viagem de “vários” espaço afora, saltando sempre
para novos inícios, incarnando um eu-feixe de sensações. “Tenho fome
de me tornar em tudo que não sou”


"Viver é uma ordem"  (Drummond)


Em sua história pessoal decide trocar o
berço monológico por um ambiente polifônico, pulsante e vulnerável.



Ser Sendo


É preciso ser arrojado para se querer tornar em tudo o que não se é. É
preciso o esforço da torção para chegar a desconjuntar o sujeito que se
é, que se acostumou a ser. E poder aparecer diante de si mesmo
estranho, áspero, alquebrado, ambulante, um balaio de muitos.



“Para que alguma coisa ocorra,
é preciso criar um espaço vazio.”
( Peter Brook – A porta aberta)