sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CRIANDO EM VEZ DE IMITANDO OU REPRODUZINDO J.A. GAIARSA

A pergunta óbvia é: mas será dada ao homem tal mutabilidade? Temos a possibilidade, no corpo, no cérebro, na consciência, de mudar sempre? Temos sugerido várias vezes que sim, mas só ao falar na dança de Shiva apresentaremos dados de fisiologia pelos quais se prova que nós somos... criação contínua, querendo ou sem querer, sabendo ou sem saber.
Os iluminados estão certos: a luz está sempre aí. A questão é ser capaz de vê-la, abrir os olhos. Antes da demonstração definitiva, que está no final do livro, apresentaremos outras provas sugestivas do mesmo fato.
Voltemos ao carrapato e a tudo o que ele representa da humanidade. Até hoje, a maior parte das pessoas comporta-se ou existe como os carrapatos, em uma vida operosa, simplória, monótona, quase sem prazer nem gosto.
Além disso, a história do carrapato se repete em todos os seres vivos - a história de um "mundo próprio" bem pequeno dentro de um mundo bem grande e muito desconhecido.
Não parece, mas dizer isso equivale a afirmar: as pessoas vivem assustadas e encolhidas diante de um grande mundo cheio de surpresas e - conforme a visão da família - muito mais cheio de ameaças do que de promessas.
Todos os "nãos" da infância são transformados em fantasmas e perigos, a maior parte deles imaginária. Os perigos reais são bem diferentes dos temidos por mamãe - que pouco sabia do mundo.
Nesse contexto, lembrando mais um exemplo de vida pobre, declaro aqui minha velha simpatia e minha compaixão pela vaca e seus parentes, cuja vida consiste em ruminar e pouco mais! Dá para imaginar? Isso é vida?
Essa, mais do que a de um pobre ruminante, parece vida de um filósofo... Sem contar que vivemos "ruminando" quase sempre os mesmos pensamentos - você já reparou?
Cada macaco em seu galho - menos nós!
Façamos um vôo rasante sobre essa história dos "mundos próprios", e dos poucos movimentos que ele exige e limita, até desembocar na briga de casal.
Comecemos com o tigre - realidade e símbolo mais alto da competência motora dos seres vivos.
Você sabe, cientistas contam todas as coisas. Vivem contando para saber quanto se repetem, e tudo o que não se repete é excluído da contagem...
Em média, nos dizem eles - que contaram! -, um tigre é bem-sucedido na caçada a cada dez tentativas! Desilusão, não é? Aquela máquina! É porque as maquininhas que ele caça são tão ou mais espertas e velozes do que ele! Velhice de tigre é triste!
Quando um tigre ataca gente, é porque ele não conseguiu nada de melhor! (Os grandes felinos não gostam de nosso cheiro. No monstruoso circo romano esses felinos precisavam estar esfomeados e bem treinados para comer gente na arena, você sabia?)
O que há de errado com os movimentos do tigre?
São sempre movimentos de tigre - e nunca ou outra coisa.
Um tigre jamais conseguiria - jamais pensaria - imitar um lobo, nem mesmo um leão, e se um dia ele tentasse imitar um rato toda a comunidade dos tigres o consideraria uma bicha!
Esse o destino, a riqueza e as limitações de todos os seres vivos, cada um ótimo na sua espécie, nenhum deles capaz de transcender, isto é, de alcançar um tipo de movimento não determinado - e não limitado - pelas suas necessidades de sobrevivência, inscritas em sua estrutura biomecânica e em suas necessidades metabólicas.
Seus circuitos nervosos e seu desempenho real se mantêm constantes desde a maturidade do animal até sua morte, antes perdendo do que melhorando em eficácia com o correr dos anos.
Só ao homem é dado aprender a vida toda. É dado, isto é, é possível; se você aproveita ou não, a escolha é sua (e das circunstâncias de sua vida).
Repito agora a pergunta mais pertinente no momento: a cada dia aprendemos mais como são delicados, numerosos e precisos os sentidos dos animais; no entanto, toda essa sensibilidade refinada converge ou se afunila em um número limitado de respostas ou comportamentos.
Toda percepção não ligada a comportamentos vitais não é percebida, é como se não existisse... Podemos por isso dizer que o mundo próprio de cada animal está muito longe de ser A Realidade, limitando-se a muito pouco dessa mesma religião.
Os animais poderiam perceber muito mais do que percebem (têm sensibilidade de sobra para isso), brincar com coisas inúteis, encantar-se com as belezas naturais, inventar novos modos de convivência - como nós fizemos e fazemos (e como os filhotes talvez façam quando brincam).
Por que o homem é diferente, por que nosso mundo próprio é muito maior?
Porque nós podemos imitar quase tudo e ao imitar nos é dado compreender "por dentro", em nós mesmos, em nosso íntimo, todas as coisas que imitamos.
Podemos literalmente "construí-las" em nós. O microcosmo pode conter toda a realidade se você estiver interessado em "ampliar a percepção" ou em "ampliar a consciência", ambas visando alterações de motricidade, da capacidade de fazer, de alterar o mundo. E vice-versa: alterando o mundo, será preciso alterar a adaptação, achar novas formas de existir, dizem todos; de fazer, prefiro dizer.
Os escolásticos declaravam: "Pela inteligência, o homem pode se fazer todas as coisas". É isso que afirmamos, mas corrigindo: podemos nos fazer todas as coisas sim, mas por imitação e até bem concreta; ficamos bem parecidos com o que imitamos - somos atores natos, atores "por natureza". Podemos assumir qualquer forma!
Podemos dizer que o homem é o mais livre entre os animais por sua versatilidade motora inigualável - por sua determinação radical.
Mas intuitivamente você sabe disso há muito tempo, só que não juntou fatos bem conhecidos para ver a resultante do conjunto.
Vou ser breve numa descrição que poderia encher quantas páginas eu quisesse.
Considere todas as artes circenses: equilibrismo na corda bamba, em bicicletas de uma roda, com pilhas de objetos sobre o equilibrista, trapézio, ginástica, malabarismo, mágicas, atirar facas e/ou machados, adestramento de animais variados e quanto mais você lembrar.
Depois vá a um teatro de danças variadas, eruditas e folclóricas - dezenas, centenas, milhares? A cada três meses surgem e se espalham pelo mundo um novo ritmo e novos movimentos.
Considere os esportes - saltos variadíssimos, corridas, arremessos, ginástica olímpica, esquis, surfe, vôo livre, patinação, skate, ciclismo, automobilismo, esportes náuticos, alpinismo.
Movimentos destinados a ampliar a consciência e o controle motor: artes marciais, os mil exercícios e posturas de ioga, o tai-chi-chuan e quanto mais.
Cada uma das categorias denominadas envolve dezenas ou centenas de movimentos diferentes.
Autor: J.A. Gaiarsa
Livro: Lições de Amor "Briga de Casal"
Editora Gente

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