segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Rumores Discretos da Subjetividade.

Sinto-me feliz por encontrar esse texto.

Rumores Discretos da Subjetividade. Rosana Preciosa

E escrevo. Por que escrevo?

"Escrever para se desintoxicar, sucatear idéias, muitas vezes entrar
numa fria e malograr. Para aprender a tensionar o discurso e
desmanchar-se em lágrimas, sem que o gesto pareça sentimental. Para
recepcionar um corpo sofrido que pede socorro e espaço para viver.
Para quase se afogar e se virar nadando cachorrinho. Para abandonar o
hábito de ser. Para escorchar a pele e com ela confeccionar um manto
de memórias editáveis. Para azucrinar o ego e seu pegajoso cortejo de
arrogâncias. Para desaprender a reprovar a vida, essa nossa insistente
mania de desqualificá-la. Para se desvencilhar da idéia de que a vida
nos reserva um propósito, e cabe a cada um de nós desvendá-la. Para
aprender a rugir para o que é pesado e instituído. Para desatolar a 
subjetividade das formas acabadas. Para ser pega em “flagrante delito
de fabular”. p. 10

Assim costumam ser os meus textos: fragmentados

"(...) pensamentos fragmentários não asseguram àquele
que lê a exposição clara de um percurso teórico, de um sítio de onde se
parte.

(...)
Entretanto, se acolhido, o fragmento pode nos surpreender. De um jeito
anfíbio, ele é capaz de operar simultaneamente uma inteireza de
articulações, combinada a uma resistência a sistematizações.

Infinitos são os fios que vão arrebentando ao longo das vias expressas
de nossa existência e que temos que re-amarrar. Porém com a extrema
delicadeza de não emboçar as fissuras, apagando as marcas de
experiências que nos são vitais, porque não nos deixam mais retornar
ao que éramos antes.

O fragmento recolhe com simpatia nossas ninharias, falhas,
contradições, disparates. Enfim, tudo que de residual a vida emana.

A escritura fragmentária, organizada em torno de idéias-palavras,
atadas entre si por um elo de sutil afinidade, é um buquê de formas que
não forjam nem um destino textual, sequer um destino subjetivo. Ao
contrário, incorpora sem culpa a “doida poligrafia”(Roland Barthes)
de uma caderneta de apontamentos solta em campo."

Um conselho para esse momento dramático em que vivo

Desmaiar o eu para que um
funcionamento apareça e aceite com espanto o inominável. “(...) sim,
acontece-me e ainda acontecerá esquecer quem sou e evoluir diante de
mim à maneira de um estranho”(Breckett). Franqueia-se a faculdade da
invenção.
São os meus: Esquizilda, Bestacel, Esquisitofrenico, En-Túlio, enfim, minhas aliterações

“Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a
beleza das frases, mas a doença delas.(...) Gostar de fazer defeitos na
frase é muito saudável(...)”(Manuel de Barros). Trair a língua é forçá-la a compassar com
a palpitação do corpo que escreve. Inseminar tal euforia que a faça
entortar, que a deixe fanha, gaga."

Os sons do corpo, a música nata

"Um corpo abriga sons para serem ouvidos. Nele transitam
cadências para serem experimentadas. É dessa doida bioquímica
de sons e ritmos que somos feitos. Mas vivemos moucos e arrítmicos.
Desfazer-se desse coágulo é reinvestir no som que jorra forte da
garganta, que molda outra linguagem, outro jeito de corpo. Cada
emissão acompanhando-se de modulações que agitam os diagramas do
pensamento. Reintrosados, som e ritmo, o corpo transido afeiçoa-se a
cada meandro seu. Invoca para si outra estatura. Reapossa-se de sua
carne antes descorada e flácida, agora belamente encarnada."

Pensamento viaja..... 
Pensamentos traçam um caminho de vento.  (...) 
Ninguém é proprietário de um pensamento. Eles nos adotam, sopram
forte em nós, nos assediam no banho, no bar, numa caminhada matinal.
É exatamente nessas horas, em que não dispomos de meios para anotálos,
que eles levantam o vôo mais alto, nos intimam a seguir suas
doidas pistas e vão nos forçando a recriar nossos passos, a desejar
outras topografias na nossa existência.
Conectar-se às forças caóticas da vida, que contagiam o pensamento,
exige coragem de se libertar de um modelo profissional de seu exercício.
Um modo de conhecimento escoltado por um saber formal, capaz de
articular discursos competentes e desonestos do ponto de vista
existencial. Varrem-se as incertezas, isolam-se as idéias estranhas,
inclassificáveis, evita-se qualquer sensação de desamparo. Enxota-se a
vida para o outro lado da calçada, procurando neutralizar os percalços
que significa viver. Faz-se de tudo para não desalinhar o cotidiano.

Pensar não é se alinhar com o que já se conhece. É justamente o
contrário disso. Movido por uma espécie de força forasteira, que
não se interessa em refletir sobre a vida, mas agregar-lhe algo mais,
pensa-se o impensável. Isso exige de nós piruetas mortais e quase
nunca podemos contar com uma cama elástica que ampare as quedas.
Despenca-se, fraturam-se ossos. Não é nada fácil desmontar um campo
pronto de referências afixado na alma.


 "Dai-nos, Senhor, a poesia de cada dia"

"Versos que vigiam a vida, expulsam o que se exalta e possa trazer
discordâncias, rupturas. Poema contrito, moderado. Experiência soft que
evita confrontos. Poema para vedar os ouvidos, cimentar os poros,
lacrar a alma.

(...) 
Se alguém me perguntasse se a poesia salva, impede que alguém
prossiga reproduzindo valores modelares, eu não saberia
responder. Mas certamente eu diria que ela os confronta, os torna
inadequados, inventa saídas, nos encoraja a desprogramá-los."



Eu


Estou de pé em meu quarto, diante de um grande espelho oval.
Espécie de oráculo, a quem confio quem sou.

(...)

Dos vários sentidos que se possa atribuir ao espelho, podemos dizer
que hoje ele funciona prioritariamente como uma espécie de cabine de
vigilância, sob o comando de um eu que internalizou direitinho os
paradigmas indispensáveis ao bom funcionamento social.



É reconfortante possuir um eu que se incumbe de catalogar nossas imagens, 
selecionando aquelas que possam ter maior aceitação social, que não atritem com os
referenciais dominantes, aos quais nos esforçamos em aderir.



Me diga: como você é? Sou introvertida, sensível, sonhadora. Sou...
O álbum de retratos desde muito cedo começa a existir na nossa vida.
Sob cada foto, breves legendas não só nos situam espaçotemporalmente
como também costumam fazer algum comentário sobre
nós. Em geral, nos configuram com inúmeras adjetivações. E lá vamos
nós arrastando um surrado pacote de atributos fixos em que, à força do
hábito, passamos a acreditar. Curiosamente, somos sempre ou “isso” ou
“aquilo”, aliás não só nós mesmos, mas tudo que existe à nossa volta, o
que nada nos exige, apenas respostas mecânicas, esquemáticas,
simplificadoras. É dessa forma que a vida faz sentido : eliminando
quaisquer variáveis.


Quebre o espelho e aspire o azar


Desalojada das formas em que se reconhecia, um discreto lamento
começa a assediá-la, mas finge não escutá-lo. Decide apegar-se com
fúria à urgência dessa nova vida, intensivamente frágil. Não lhe passa
pela cabeça rotulá-la. Prefere carregar consigo esse inominável estado
inédito. Prefere de agora em diante deixar a porta aberta.“(...) Não
sou mais eu mesmo como antes, fui arrebatado em um devir outro,
levado para além de meus Territórios existenciais familiares.”(Guattari, Caosmose,p.118)


Afinal, um sujeito anuncia que
vai nos revelar sua identidade, sua intimidade, seu eu, e acaba por se
dar conta de que está à procura de uma substância que não reside em
lugar algum. E que não existe um cá dentro, revestido de plácida
intimidade, protetor, e um lá fora que o ameaça constantemente com a
degradação de si. E o que se vê constituir-se na tela é exatamente o
contrário disso: presenciamos um alguém produzindo-se, confabulando
com o vivo, em permanente conexão com as paisagens do fora, capaz
de ser habitado por uma população estranha a si mesmo, um ativador
consciente de misturas tais que vai atraindo para si novas montagens
de existência. Trata-se de alguém em empenhada transformação.
Alguém aceso.
 

O espelho partiu-se. Eu não coincido mais com você, desgarrei-me,
quero me multiplicar.

Quanto a você, vai ter que aprender a nascer.

Nascer pelo meio

Intuir a urgência de se fabular um procedimento de investigação da
existência, que acolha nossos estranhamentos, nossos esgarçamentos identitários, nossos balbucios.


Brotar pelo meio é opor-se a um destino que progride em direção a
algo, é acariciar riscos, acumular êxitos e retumbantes fracassos,
é se infiltrar por alguma vizinhança, fazendo conexões, é povoar o
cotidiano de incertezas, é recolher-se numa tenda de silêncios, num
gesto de delicadeza diante do que está a se formar e maturar diante de
si. É fazer vingar um sujeito, cuja pupila arquiva imagens do fora,
recusando-se a fazê-las coincidir consigo mesmo. É aprender a avançar
com a fatal coragem de não saber o que esperar dos encontros. É
desembarcar em terra firme, aos berros, sem saber no que isso vai dar,
apenas dobrando-se aos imponderáveis da existência.




Rolam entontecidos
pelo túnel como se estivessem expostos a um vento brincalhão que se
diverte em lhes virar pelo avesso, em soprar-lhes na alma espanto. O
vento e suas desorientadas acrobracias invade o espaço vida, inventa
um arrevesado sentido para a existência. Ao cabo da brincadeira as
crianças se sentem esgotadas e estranhamente revigoradas.
 

Uma casa (Nyumba- Kaya - Mia Couto)


A casa quarentena, isolada, isolante, lado a lado com uma outra, a
coletiva. Pátio aberto aos encontros entre dessemelhantes, que
não pretendem fundir-se numa família de iguais.22 Um aglomerado
vazado, de cômodos articulados, de entradas e saídas múltiplas. Uma
matéria viva compartilhando experiências com quem nela circule,
provendo a todos com uma espécie de manto que aninha sem sufocar.



Na casa de pai e mãe eu era órfão. E fugia de lá pelas rachaduras
da parede de meu quarto, pequenas brechas que me serviam de
passagem. Foi por ali que passei a vazar todas as noites, tramando
percursos que desarmassem a hegemonia das formas prontas.



(...) a casa, essa excêntrica máquina de cristalização de
afetos, produzindo catatonia coletiva.
ouve.



Houve um momento em que a casa começou a se desfigurar
completamente. Suspeitei. Pareceu-me menos inteiriça, menos
homogênea, menos contraída, mais fluida, gelatinosa até.



Eu nunca estive à procura de um território, mas de estados de
território, espaços que me fisgam pelo estranhamento de seus
volumes, formas, cores vivas, sua explícita plasticidade. E estou sempre
lá, operando nessa coordenada incerta, irreproduzível graficamente,
trafegando nesse espaço movente, silencioso, incapturável.



****

Uma vida vulnerável, enrodilhada de sensações. Que tipo de
existência pode advir de estados informes?



Que corpo suportaria tanto assédio?


Alguém que emprestasse sua carne à escuta da existência.
Um tipo andarilho, um freqüentador de quebradas, alguém disposto a
“fazer um perigo”, segundo Clarice Lispector. Um náufrago de si, que
teima em ancorar seus navios em terras devastadas.



%%%%%


É a poesia abrindo alas à estranheza. A instrução do poeta funciona
como um rito que prepara o ouvido a ser capaz de perder-se de si,
desnortear-se, consumir-se lentamente.



Caminho do caminhante
 
Biografia às avessas, que movimenta um núcleo nu de sujeito, que
cartografa seus espaços sempre desmontáveis: pessoa que nasce num
local qualquer, que renasce numa cidade ainda maior, e que se percebe
sempre outra, de um modo sempre diverso do anterior, que vai “se variando”

de destinação, porque recusa a biografia-destino, a biografiainformante
de um sujeito.



Projeta a vida numa arte da vadiagem a serviço das
experimentações. A viagem de “vários” espaço afora, saltando sempre
para novos inícios, incarnando um eu-feixe de sensações. “Tenho fome
de me tornar em tudo que não sou”


"Viver é uma ordem"  (Drummond)


Em sua história pessoal decide trocar o
berço monológico por um ambiente polifônico, pulsante e vulnerável.



Ser Sendo


É preciso ser arrojado para se querer tornar em tudo o que não se é. É
preciso o esforço da torção para chegar a desconjuntar o sujeito que se
é, que se acostumou a ser. E poder aparecer diante de si mesmo
estranho, áspero, alquebrado, ambulante, um balaio de muitos.



“Para que alguma coisa ocorra,
é preciso criar um espaço vazio.”
( Peter Brook – A porta aberta)


 

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