terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A nova paisagem sonora

IN: O ouvido pensante, Murray Schafer

A nova paisagem sonora

Sim, mas isso é música?

Música: Arte de combinar sons visando à beleza da forma e a expressão das emoções; os sons assim produzidos; som agradável, por exemplo o canto de um pássaro, o murmúrio de um riacho, o latido de cães. (The Concise English Dictionary)

p.120

- "(...) não se pode ter uma definição que não inclua todos os objetos ou atividades de sua categoria"

- " Quando John Cage abre a porta da sala de concerto e encoraja os ruídos da rua a atravessar suas composições, ele ventila a arte da música com conceitos novos e aparentemente sem forma."

Schafer escreveu a Cage e pediu uma definição de música. Sua resposta:

" Música é sons, sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora de salas de concerto" - veja Thoreau

- "A referência é ao Walden de Thoreau, em que o autor descobre um inesgotável entretenimento nos sons e visões da natureza.

- "(...) Pouco a pouco, no decorrer do século XX, todas as definições convencionais de música vêm sendo desacreditadas pelas abundantes atividades dos próprios músicos."

p.121

- "Primeiro, com a tremenda expansão dos instrumentos de percussão em nossas orquestras ( produzem sons arrítmicos e sem altura definida) (...)"

- " Hoje todos os sons pertencem a um campo contínuo de possibilidades, situado dentro do domínio abrangente da música."

- "Eis a nova orquestra: o universo sônico"

- " (...) os educadores musicais são os guardiões da teoria e prática da música. E toda a natureza dessa teoria e prática terá que sr inteiramente reconsiderada"

p.123

- Um dos propósitos desta parte do livro é dirigir os ouvidos dos ouvintes para a nova paisagem sonora da vida contemporânea e familiarizá-los com um vocabulário de sons que se pode esperar ouvir, tanto de dentro como fora das salas de concerto. Pode ser que os ouvintes não gostem de todos os sons dessa nova música, e isso também será bom. Pois, juntamente com outras formas de poluição, o esgoto sonoro de nosso ambiente contemporâneo não tem precedentes na história humana."

p.124

O Ambiente Sônico

- "Qualquer coisa que se mova, em nosso mundo, vibra o ar."

- "Caso ela se mova de modo a oscilar mais de dezesseis vezes por segundo, esse movimento é ouvido como som. O mundo então está cheio de sons. Ouça"

- "Sente-se em silêncio por um momento e receba os sons"


p.125


- " Se a nova orquestra sonora é o universo sônico, como diferenciarmos os instrumentos? Como poderíamos escrever a biografia completa de um passo, de modo a sabermos que era a história do seu passo e não do meu?"
Uma garota decidida foi até a esquina no sábado e tentou elaborar uma notação descritiva para os diferentes pés dos passantes. Ela observou e ouviu a coreografia dos pés e anotou o tamanho do sapato ou bota; a altura de seu passo, agudo ou grave; o timbre de seu som, metálico, arrastado ou pesado; e o tempo de seu movimento, desde o ágil tique-taque dos saltos pontiagudos até o abafado arrastar de pés errantes"

- "Os sons da orquestra universal são infinitamente variados"

- "Os sons ouvidos podiam ser divididos em sons produzidos pela natureza, por seres humanos e por engenhocas elétricas ou mecânicas."

- "Será que as pessoas escutam os mesmos sons que escutamos hoje?"

Estudo comparativo em documentos históricos para listar os sons contidos neles. Foram:

- A Batalha entre o Carnaval e a Quaresma de Pieter Brueguel. Apresenta sons de uma paisagem urbana holandesa do século XVI.



- Trecho de um romance de Arnold Bennet e nos apresentou os sons de uma cidade industrial do norte da Inglaterra no século XIX.

- Aldeia indígena norte-americana

- Uma cena bíblica, etc



domingo, 13 de novembro de 2011

Os animais haviam partido

http://www.youtube.com/watch?v=1DJaPxJKhYU



Acordei e, pela primeira vez
Os animais tinham ido embora
Deixou essa casa vazia agora
Não tenho certeza se é o meu lugar
Ontem você me pediu
Para te escrever uma música agradável
Vou fazer o meu melhor agora
Mas você se foi por tanto tempo

A janela está aberta agora
E o inverno se estabelece
A gente chama isso de Natal
Quando as propagandas começam
Eu amo sua depressão
E amo sua dupla personalidade
Eu amo quase tudo
O que você tem a oferecer

Oh, eu sei é que eu te deixei
Em lugares de desespero
Oh, eu sei que te amo
Então, por favor, jogue suas tranças pra baixo

À noite eu viajo sem você
E espero não acordar
Porque acordar sem você
É como beber de uma xícara vazia

Acordei e, pela primeira vez,
Os animais tinham ido embora
Nossos relógios estão "tique-taqueando"
Então antes de nosso tempo acabar
Nós poderíamos arranjar uma casa e algumas caixas na grama
Nós poderíamos fazer bebês e músicas acidentais

Eu sei que fui um mentiroso
E sei que fui um tolo
Espero que não tenhamos terminado
Mas estou feliz de termos quebrado as regras
Minha cova está profunda agora
Mas sua luz ainda está brilhando
Eu cubro meus olhos
Ainda tudo o que eu vejo é você

Oh, eu sei é que eu te deixei
Em lugares de desespero
Oh, eu sei que te amo
Então, por favor, jogue suas tranças pra baixo

À noite eu viajo sem você
E espero não acordar
Pois acordar sem você
É como beber de uma xícara vazia

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Educadores de Museus

As pessoas que trabalham no setor educativo de museus são EDUCADORES.
Alguns termos me irrita profundamente como hoje vou fazer MONITORIA. Ou alguém que me pergunta "você é o MONITOR?". Quer me deixar com raiva nas veias e sangue escoando pelo meu ventre é dizer: "Gente, presta atenção na GUIA".

Como todos esses termos existem e eu fico demasiadamente incomodada quando as pessoas confundem, resolvi esclarecer, partindo de uma texto:

Educação em Museus: termos que revelam preconceitos. Ana Mae Barbosa 

EDUCADORES: Geralmente são formados em Universidades nos cursos de História, de Arte, de Educação, de Filosofia, de Letras e de Comunicação, enfim. Eles são educadores, pois tratam de ampliar a relação entre museu e público, ou melhor são mediadores entre a obra de arte e o público

MONITOR: É quem ajuda um professor na sala ou que veicula a imagem no HD, no caso dos computadores. Falta de autonomia e de poder próprio.

VISITA GUIADA: Outro termo preconceituoso. Pressupõe a cegueira do público e a ignorância total. Ante foi utilizado Visita dialogada (melhor!). O visitante pensa que não vai se comprometer, vai só ouvir. O termo também não é adequado (visita dialogada) pois como depende do outro para a conversa, pode amedrontar o visitante.

Se você quer ficar sozinho dentro do museu, é possível. Pode ser um momento entre você e a confortante obra de arte.

Mas se você quer conversar, chama um educador para juntos, verem a exposição, trocarem ideias e sensações e informações sobre a exposição.

CURADORIA EDUCATIVA: É usado pra dissimular o preconceito. É usado para quem organiza cursos, seminários, etc.

Bom, na realidade sou uma espécie de professora também. Não entendo o porque, nós de museus, temos um "repelimento" da educação, se somos formados pelas mesmas instituições e pela mesma pedagogia que se formam os professores. Tá certo que não carregamos conteúdos, não damos provas para avaliar e nem temos planos de aula a seguir. Partimos do outro, das referências do outro para iniciarmos nosso diálogo. Perguntamos mais, ouvimos mais e trabalhamos no improviso (lembremos: só improvisa quem domina o assunto, é igual música, teatro, enfim.)

"O desprezo pela educação que caracteriza as entidades culturais de elite é ainda maior quando essa entidade se dedica à arte, especialmente às artes plásticas. Parece que, em se tratando de arte, quanto mais protegê-la da contaminação com educação, mais valiosa será."

O museu é um lugar de elite e não está disposto a mudar sua posição. Diz que arte não se ensina. "Sejamos radicais: nada se ensina, tudo se aprender, depende do diálogo, depende do diálogo da interlocução, da intermediação, da necessidade e do interesse.

Na cultura artística brasileira, educação é considerada sinônimo de mediocridade. (...) Acredito que foi a ação repressora da ditadura e os baixos salários que criminalizaram a educação no Brasil.




    

domingo, 6 de novembro de 2011

Hiroshima, mon amour

Sempre escrevo sobre os textos que leio. Havia me esquecido que amo cinema e o quanto me faz bem "ver"...
Cada dia da minha existencia noto manias que cultivo. Dessa vez percebi que gosto de pausar o filme, como um click de fotografia... Gosto de compor a televisão. Deixo um tempo pausado e observo a tela, como se olhasse para um quadro no museu ou como se estivesse atrás de uma câmera, pronta para dar o "click".
Outra coisa que adoro fazer é escrever as frases que me toca.

Nunca havia assistido Hiroshima, mon amour. Apesar do DVD ficar pulando (isso me deixou irritadissíma) me sensibilizei com o filme.

Controlamos a memória e não controlamos o esquecimento. A gente simplesmente esqueci. O tempo não cura, o tempo mata. Afasta a presença e embaça a visão. "É um dos deuses mais lindos??". Não, definitivamente, o tempo não é um deus. O tempo é o diabo!

Como eu estou com medo de esquecer e me apavoro de pensar que vou ser esquecida.

Filme:
É um filme de amor. Uma atriz francesa vai para o Japão, especificamente em Hiroshima para fazer um filme sobre paz. As cenas pós bomba atômica são muito fortes.
Lá ela conhece um arquiteto japonês, do qual eles se aproximam intimamente encontrando o amor. Acontece que ambos moram longe e são casados. O pouquissimo tempo que eles se conhecem e que terão tempo para se conhecer não seria suficiente. Sendo assim ele elege um ponto da vida dela para ela lhe contar. Ela escolhe sua juventude, seus 20 anos na cidade de Nevers, na França, quando ela se apaixona loucamente por um soldado alemão morto em seus braços.

E assim começa o filme...

"Como você, escolhi ter uma memória de sombras, de pedras.
Lutei por conta própria, com todas as forças contra o horror de não entender o porquê dessa lembrança.
Com você, eu esqueci.

Por que negar a evidente necessidade da memória?

Eu encontro você
Lembro me de você
Quem é você

Você está me matando. Você me faz bem.
Como eu poderia imaginar que essa cidade foi feita para o amor?
E que você foi feito na medida do meu corpo?
Eu gosto de você.
Que maravilha!
Que lentidão, tão repentina.
Que doçura!
Você está me matando. Você me faz bem.

"você é como mil mulheres juntas. Você me dá muita vontade de amar."

Agora só falta matar o tempo que nos separa.

É preciso evitar pensar nas dificuldades que o mundo nos apresenta algumas vezes.
Senão, ele se tornaria irrespirável.
Afaste-se de mim!

Eu tinha fome.
Fome de infidelidade, de adultério, de mentiras e de morrer.

 Como com ele, o esquecimento começará por seus olhos.
Igual.
Depois, como com ele, sua voz será esquecida.
Igual.
Depois, como com ele... ele abrangerá você inteiro pouco a pouco.
Você se tornará uma canção."



segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Rumores Discretos da Subjetividade.

Sinto-me feliz por encontrar esse texto.

Rumores Discretos da Subjetividade. Rosana Preciosa

E escrevo. Por que escrevo?

"Escrever para se desintoxicar, sucatear idéias, muitas vezes entrar
numa fria e malograr. Para aprender a tensionar o discurso e
desmanchar-se em lágrimas, sem que o gesto pareça sentimental. Para
recepcionar um corpo sofrido que pede socorro e espaço para viver.
Para quase se afogar e se virar nadando cachorrinho. Para abandonar o
hábito de ser. Para escorchar a pele e com ela confeccionar um manto
de memórias editáveis. Para azucrinar o ego e seu pegajoso cortejo de
arrogâncias. Para desaprender a reprovar a vida, essa nossa insistente
mania de desqualificá-la. Para se desvencilhar da idéia de que a vida
nos reserva um propósito, e cabe a cada um de nós desvendá-la. Para
aprender a rugir para o que é pesado e instituído. Para desatolar a 
subjetividade das formas acabadas. Para ser pega em “flagrante delito
de fabular”. p. 10

Assim costumam ser os meus textos: fragmentados

"(...) pensamentos fragmentários não asseguram àquele
que lê a exposição clara de um percurso teórico, de um sítio de onde se
parte.

(...)
Entretanto, se acolhido, o fragmento pode nos surpreender. De um jeito
anfíbio, ele é capaz de operar simultaneamente uma inteireza de
articulações, combinada a uma resistência a sistematizações.

Infinitos são os fios que vão arrebentando ao longo das vias expressas
de nossa existência e que temos que re-amarrar. Porém com a extrema
delicadeza de não emboçar as fissuras, apagando as marcas de
experiências que nos são vitais, porque não nos deixam mais retornar
ao que éramos antes.

O fragmento recolhe com simpatia nossas ninharias, falhas,
contradições, disparates. Enfim, tudo que de residual a vida emana.

A escritura fragmentária, organizada em torno de idéias-palavras,
atadas entre si por um elo de sutil afinidade, é um buquê de formas que
não forjam nem um destino textual, sequer um destino subjetivo. Ao
contrário, incorpora sem culpa a “doida poligrafia”(Roland Barthes)
de uma caderneta de apontamentos solta em campo."

Um conselho para esse momento dramático em que vivo

Desmaiar o eu para que um
funcionamento apareça e aceite com espanto o inominável. “(...) sim,
acontece-me e ainda acontecerá esquecer quem sou e evoluir diante de
mim à maneira de um estranho”(Breckett). Franqueia-se a faculdade da
invenção.
São os meus: Esquizilda, Bestacel, Esquisitofrenico, En-Túlio, enfim, minhas aliterações

“Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas leituras não era a
beleza das frases, mas a doença delas.(...) Gostar de fazer defeitos na
frase é muito saudável(...)”(Manuel de Barros). Trair a língua é forçá-la a compassar com
a palpitação do corpo que escreve. Inseminar tal euforia que a faça
entortar, que a deixe fanha, gaga."

Os sons do corpo, a música nata

"Um corpo abriga sons para serem ouvidos. Nele transitam
cadências para serem experimentadas. É dessa doida bioquímica
de sons e ritmos que somos feitos. Mas vivemos moucos e arrítmicos.
Desfazer-se desse coágulo é reinvestir no som que jorra forte da
garganta, que molda outra linguagem, outro jeito de corpo. Cada
emissão acompanhando-se de modulações que agitam os diagramas do
pensamento. Reintrosados, som e ritmo, o corpo transido afeiçoa-se a
cada meandro seu. Invoca para si outra estatura. Reapossa-se de sua
carne antes descorada e flácida, agora belamente encarnada."

Pensamento viaja..... 
Pensamentos traçam um caminho de vento.  (...) 
Ninguém é proprietário de um pensamento. Eles nos adotam, sopram
forte em nós, nos assediam no banho, no bar, numa caminhada matinal.
É exatamente nessas horas, em que não dispomos de meios para anotálos,
que eles levantam o vôo mais alto, nos intimam a seguir suas
doidas pistas e vão nos forçando a recriar nossos passos, a desejar
outras topografias na nossa existência.
Conectar-se às forças caóticas da vida, que contagiam o pensamento,
exige coragem de se libertar de um modelo profissional de seu exercício.
Um modo de conhecimento escoltado por um saber formal, capaz de
articular discursos competentes e desonestos do ponto de vista
existencial. Varrem-se as incertezas, isolam-se as idéias estranhas,
inclassificáveis, evita-se qualquer sensação de desamparo. Enxota-se a
vida para o outro lado da calçada, procurando neutralizar os percalços
que significa viver. Faz-se de tudo para não desalinhar o cotidiano.

Pensar não é se alinhar com o que já se conhece. É justamente o
contrário disso. Movido por uma espécie de força forasteira, que
não se interessa em refletir sobre a vida, mas agregar-lhe algo mais,
pensa-se o impensável. Isso exige de nós piruetas mortais e quase
nunca podemos contar com uma cama elástica que ampare as quedas.
Despenca-se, fraturam-se ossos. Não é nada fácil desmontar um campo
pronto de referências afixado na alma.


 "Dai-nos, Senhor, a poesia de cada dia"

"Versos que vigiam a vida, expulsam o que se exalta e possa trazer
discordâncias, rupturas. Poema contrito, moderado. Experiência soft que
evita confrontos. Poema para vedar os ouvidos, cimentar os poros,
lacrar a alma.

(...) 
Se alguém me perguntasse se a poesia salva, impede que alguém
prossiga reproduzindo valores modelares, eu não saberia
responder. Mas certamente eu diria que ela os confronta, os torna
inadequados, inventa saídas, nos encoraja a desprogramá-los."



Eu


Estou de pé em meu quarto, diante de um grande espelho oval.
Espécie de oráculo, a quem confio quem sou.

(...)

Dos vários sentidos que se possa atribuir ao espelho, podemos dizer
que hoje ele funciona prioritariamente como uma espécie de cabine de
vigilância, sob o comando de um eu que internalizou direitinho os
paradigmas indispensáveis ao bom funcionamento social.



É reconfortante possuir um eu que se incumbe de catalogar nossas imagens, 
selecionando aquelas que possam ter maior aceitação social, que não atritem com os
referenciais dominantes, aos quais nos esforçamos em aderir.



Me diga: como você é? Sou introvertida, sensível, sonhadora. Sou...
O álbum de retratos desde muito cedo começa a existir na nossa vida.
Sob cada foto, breves legendas não só nos situam espaçotemporalmente
como também costumam fazer algum comentário sobre
nós. Em geral, nos configuram com inúmeras adjetivações. E lá vamos
nós arrastando um surrado pacote de atributos fixos em que, à força do
hábito, passamos a acreditar. Curiosamente, somos sempre ou “isso” ou
“aquilo”, aliás não só nós mesmos, mas tudo que existe à nossa volta, o
que nada nos exige, apenas respostas mecânicas, esquemáticas,
simplificadoras. É dessa forma que a vida faz sentido : eliminando
quaisquer variáveis.


Quebre o espelho e aspire o azar


Desalojada das formas em que se reconhecia, um discreto lamento
começa a assediá-la, mas finge não escutá-lo. Decide apegar-se com
fúria à urgência dessa nova vida, intensivamente frágil. Não lhe passa
pela cabeça rotulá-la. Prefere carregar consigo esse inominável estado
inédito. Prefere de agora em diante deixar a porta aberta.“(...) Não
sou mais eu mesmo como antes, fui arrebatado em um devir outro,
levado para além de meus Territórios existenciais familiares.”(Guattari, Caosmose,p.118)


Afinal, um sujeito anuncia que
vai nos revelar sua identidade, sua intimidade, seu eu, e acaba por se
dar conta de que está à procura de uma substância que não reside em
lugar algum. E que não existe um cá dentro, revestido de plácida
intimidade, protetor, e um lá fora que o ameaça constantemente com a
degradação de si. E o que se vê constituir-se na tela é exatamente o
contrário disso: presenciamos um alguém produzindo-se, confabulando
com o vivo, em permanente conexão com as paisagens do fora, capaz
de ser habitado por uma população estranha a si mesmo, um ativador
consciente de misturas tais que vai atraindo para si novas montagens
de existência. Trata-se de alguém em empenhada transformação.
Alguém aceso.
 

O espelho partiu-se. Eu não coincido mais com você, desgarrei-me,
quero me multiplicar.

Quanto a você, vai ter que aprender a nascer.

Nascer pelo meio

Intuir a urgência de se fabular um procedimento de investigação da
existência, que acolha nossos estranhamentos, nossos esgarçamentos identitários, nossos balbucios.


Brotar pelo meio é opor-se a um destino que progride em direção a
algo, é acariciar riscos, acumular êxitos e retumbantes fracassos,
é se infiltrar por alguma vizinhança, fazendo conexões, é povoar o
cotidiano de incertezas, é recolher-se numa tenda de silêncios, num
gesto de delicadeza diante do que está a se formar e maturar diante de
si. É fazer vingar um sujeito, cuja pupila arquiva imagens do fora,
recusando-se a fazê-las coincidir consigo mesmo. É aprender a avançar
com a fatal coragem de não saber o que esperar dos encontros. É
desembarcar em terra firme, aos berros, sem saber no que isso vai dar,
apenas dobrando-se aos imponderáveis da existência.




Rolam entontecidos
pelo túnel como se estivessem expostos a um vento brincalhão que se
diverte em lhes virar pelo avesso, em soprar-lhes na alma espanto. O
vento e suas desorientadas acrobracias invade o espaço vida, inventa
um arrevesado sentido para a existência. Ao cabo da brincadeira as
crianças se sentem esgotadas e estranhamente revigoradas.
 

Uma casa (Nyumba- Kaya - Mia Couto)


A casa quarentena, isolada, isolante, lado a lado com uma outra, a
coletiva. Pátio aberto aos encontros entre dessemelhantes, que
não pretendem fundir-se numa família de iguais.22 Um aglomerado
vazado, de cômodos articulados, de entradas e saídas múltiplas. Uma
matéria viva compartilhando experiências com quem nela circule,
provendo a todos com uma espécie de manto que aninha sem sufocar.



Na casa de pai e mãe eu era órfão. E fugia de lá pelas rachaduras
da parede de meu quarto, pequenas brechas que me serviam de
passagem. Foi por ali que passei a vazar todas as noites, tramando
percursos que desarmassem a hegemonia das formas prontas.



(...) a casa, essa excêntrica máquina de cristalização de
afetos, produzindo catatonia coletiva.
ouve.



Houve um momento em que a casa começou a se desfigurar
completamente. Suspeitei. Pareceu-me menos inteiriça, menos
homogênea, menos contraída, mais fluida, gelatinosa até.



Eu nunca estive à procura de um território, mas de estados de
território, espaços que me fisgam pelo estranhamento de seus
volumes, formas, cores vivas, sua explícita plasticidade. E estou sempre
lá, operando nessa coordenada incerta, irreproduzível graficamente,
trafegando nesse espaço movente, silencioso, incapturável.



****

Uma vida vulnerável, enrodilhada de sensações. Que tipo de
existência pode advir de estados informes?



Que corpo suportaria tanto assédio?


Alguém que emprestasse sua carne à escuta da existência.
Um tipo andarilho, um freqüentador de quebradas, alguém disposto a
“fazer um perigo”, segundo Clarice Lispector. Um náufrago de si, que
teima em ancorar seus navios em terras devastadas.



%%%%%


É a poesia abrindo alas à estranheza. A instrução do poeta funciona
como um rito que prepara o ouvido a ser capaz de perder-se de si,
desnortear-se, consumir-se lentamente.



Caminho do caminhante
 
Biografia às avessas, que movimenta um núcleo nu de sujeito, que
cartografa seus espaços sempre desmontáveis: pessoa que nasce num
local qualquer, que renasce numa cidade ainda maior, e que se percebe
sempre outra, de um modo sempre diverso do anterior, que vai “se variando”

de destinação, porque recusa a biografia-destino, a biografiainformante
de um sujeito.



Projeta a vida numa arte da vadiagem a serviço das
experimentações. A viagem de “vários” espaço afora, saltando sempre
para novos inícios, incarnando um eu-feixe de sensações. “Tenho fome
de me tornar em tudo que não sou”


"Viver é uma ordem"  (Drummond)


Em sua história pessoal decide trocar o
berço monológico por um ambiente polifônico, pulsante e vulnerável.



Ser Sendo


É preciso ser arrojado para se querer tornar em tudo o que não se é. É
preciso o esforço da torção para chegar a desconjuntar o sujeito que se
é, que se acostumou a ser. E poder aparecer diante de si mesmo
estranho, áspero, alquebrado, ambulante, um balaio de muitos.



“Para que alguma coisa ocorra,
é preciso criar um espaço vazio.”
( Peter Brook – A porta aberta)


 

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Conceito de Cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural

Quando começei a ler esse texto, achei um porre... Pensava que era mais uma daquelas acadêmicas que endossam seu monte de blablablá com etimologias, discurso de competência e principalmente aquelas conversas fora da realidade, pra "boi dormir".

Mas conforme fui lendo melhor, passando pelas páginas, pude perceber que que a moça é boa. Sim ela realmente se posiciona no texto, se eu concordei ou não, sei lá, isso nem interessa, mas que o texto fica delicioso e te põe para refletir: isso é que importa!

Ah, sinto informar: o final do texto é chato!

Conceito de Cultura e sua inter-relação com o patrimônio cultural e a preservação. Waldisa Russio Camargo Guarnieri. 


Fato museológico "é a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem também pertence e sobre a qual tem o poder de agir."

A informação passada pelo museu facilita a ação transformadora do Homem. (isso é que espero)

O Museu 

Essa instituição não implica em reconhecimento apenas por quem o cria e implanta ou pelo sistema e órgãos do Poder, mas sobretudo, no reconhecimento público. Pelo simples fato de que temos feito museus PARA a comunidade e não COM A COMUNIDADE, temos "quistos de coleções" e não, necessariamente, estabelecemos museológicos reconhecidos pela comunidade ( " a que se destinam", na frase gasta do discurso competente)

O homem é o ser que se realiza criticamente, historicamente; ao realizar-se, ele constróe sua História e faz sua Cultura. O existir do Homem, seu viver, está relacionado com seu pensamento e ação, com sua produção, seu trabalho. O homem é um animal que trabalha mesmo quando brinca, porque age conscientemente (ou com a possibilidade do exercício consciente) e decide, por ação ou omissão, o seu destino.

Enquanto indaga: conhece, constrói... E ao construir a História, ele age, ele modifica. Cria beleza, tece relações humanas, faz sua Cultura...

Assim, a Cultura do Homem compreende suas ideias, valores, seu imaginário, sua criação intelectual ou intelectual e material.

Para o museólogo o conceito de cultura com que ele opera é o mais simples de todos: cultura é o fazer e o viver cotidiano: cultura é o trabalho do homem em todas as suas manifestações e aspectos, cultura é a relação do homem com seu meio, com os outros seres.

A preservação do patrimônio cultural é um ato político e temos de assumi-lo como tal, mesmo nas nossas áreas específicas de atuação profissional.

Indagações (que são as minhas)

Esse patrimônio é resultado da valorização de uma elite ou de uma eleição por parte de camadas e segmentos significativos da comunidade e da sociedade?

Uma sociedade que privilegia, em sua preservação, o patrimônio imobiliário não poderá, mais do que estar valorizando técnicas construtivas ou testemunhos arquitetônicos, estar se preocupando priorotariamente ou apenas com os aspectos econômicos dos chamados "bens de raiz"? (não sei se concordo plenamente com isso, acho que tem o lance do estilo, da arte na arquitetura também, além do esquema perverso)

Uma sociedade que esquece o patrimônio constituído pelos bens móveis produzidos pelo Homem, não estará instilando (persuadindo) sutilmente a substituição do valor da produção humana pelo valor de consumo, o fazer pelo possuir, o que, de alguma maneira, não estaria contribuindo para maior alienação do homem?  
 



A mulher esqueleto

Mulheres que correm com o Lobos. Mitos e arquétipo da mulher selvagem. Clarissa Pinkola Estés.

Minha leitura do Capítulo 05:
A Caçada: Quando o coração é um caçador solitário


Mulher esqueleto

Devemos encarar a vida e os relacionamentos como um ciclo de vida-morte-vida. O tempo todo morremos, mas a morte também nos leva a uma outra vida. Entre os lobos, os ciclos da vida-morte-vida da natureza e do destino são encarados com elegância, inteligência e persistência para ficar junto do outro e viver por muito tempo e o melhor possível.

Para que os seres humanos vivam dessa forma e sejam leais desse jeito que é o mais sábio, o mais duradouro e o mais sensível, é preciso que se enfrente aquilo que mais teme. Não há meios de escapar. Teremos que dormir com a morte!!

A mulher esqueleto é uma história de caça a respeito do amor. Nas histórias do norte, o amor não é um encontro romântico entre dois amantes e sim, o amor como a união entre dois serescuja força reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança, como a vida e a morte.

Nessa história a morte não é um mal e sim uma divindade!

A história:

"Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.
Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.
O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu - logo em que! - nos ossos das costelas da Mulher-esqueleto. O pescador pensou: “Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!” Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá em baixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.
O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado a superfície e caia suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos. - Agh! - gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte.
- Agh! - berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção

da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia.Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás.Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.

- Aaagggggghhhh! - uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saia correndo agarrado a vara de pescar.E o cadáver branco da Mulher-esqueleto, ainda preso a linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou.Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.
O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também a todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.
Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela - aquilo - jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro,um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um que de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.

- Oh, na, na, na. - Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos.- Oh, na, na, na. - Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano.

Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra - não tinha coragem - para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá em baixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos.
O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando.Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.
A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima a luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo,e pôs a boca junto a lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu,bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm!... Bom, Bomm!
Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
- Carne, carne, carne! Carne, carne, carne!- E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne.Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.
Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro,enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.
As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água.As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem."

Para amar é preciso não só ser forte, mas também sábio. A força vem do espírito. A sabedoria, da Mulher- esqueleto. Devemos desenvolver um relacionamento com a natureza da vida-morte-vida. Quando temos esse tipo de relacionamento não saímos mais por ai em busca de fantasias, mas nos tornamos conhecedores das mortes necessárias e nascimentos que criam o verdadeiro relacionamento.

Na cultura ocidental a morte foi encoberta por vários dogmas e doutrinas até um ponto que se separou de vez da sua outra metade, a vida. Aprendemos que a morte é sempre acompanhada de mais morte. Isso não é verdade, pois a morte está sempre encubada no processo de uma vida nova, mesmo quando nossa existência foi retalhada até os ossos.

É fato que dentro de um único relacionamento amoroso existem muitos finais. Mesmo assim, de algum modo e em algum ponto quando duas pessoas se amam, existe um coração e um alento. Enquanto um lado do coração se esvazia, o outro se enche. Quando uma respiração termina, outra se inicia.

Se aceitarmos que não existe nada além da morte tomamos relacionamentos amorosos como pavorosos, teremos medo de passar um fim que seja...

Para algumas culturas (a nossa!) a morte aparece com uma foice na mão, pronta para ceifar e acabar com a vida de todos. Já para outras culturas, principalmente no leste da Ìndia e a cultura maia, a Morte é uma divindade. Ela abraça os que já estão morrendo, proporcionando alívio. Diz-se que ela vira o bebê no útero para a posição de cabeça para baixo a fim de que ele possa nascer. Diz-se que ela guia as mãos da parteira, que abre o caminho para o leite nos seios maternos e que ainda nos consola quem quer que esteja chorando sozinho.

Sem a morte, não há lições; sem a morte não há fundo escuro contra o qual o diamante contila. A nossa cultura nos ensina muitas vezes a jogar a mulher esqueleto penhasco abaixo, não só porque ela é apavoante, mas também porque demora muito para que aprendamos a lidar com ela. Um mundo desalmado estimula cada vez maior rapidez na procura do único modo eficaz de ser. No entanto o milgre que estamos procurando leva tempo: tempo para encontrá-lo, tempo para trazê-lo à vida.

Bom, o capítulo não acaba por aqui... 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Arpilleras

Da resistência chilena, as Arpilheiras.

Encantei-me com o trabalho dessas mulheres chilenas. A arpillera era uma técnica textil chilena que possui suas raízes numa antiga tradição popular, iniciada por um grupo de bordadeiras em Isla Negra, localizada no litoral do Chile.

Minha amada cantora Violeta Parra ajudou a difundia essa técnica. Violeta dizia: " as arpilleras são como canções que se pintam"

A arpilleras são montadas com suporte de aniagem (tecido cru) pano rústico provenientes de saco de farinhas ou batatas. Toda costura é feita a mão, utilizando agulhas e fios. As vezes são adicionados fios de lã à mão ou em crochè, para realçar as figuras. O tamanho era o mesmo do saco, depois de lavado era cortado em seis partes e seis mulheres bordam suas própria história, a de sua família e de sua comunidade. Violeta expôs uma série de arpilleras no Louvre em 1964.

As arpilleras além de registrar a vida cotidiana das comunidades e de afirmar sua identidade, elas também foram uma forma de expressar a realidade e sobreviver em frente a tempos "bicudos" que a política chilena passou. Graças as arpilheras muitas mulheres chilenas puderam denunciar e enfrentar a ditadura que começou em 1973.

As arpilheras mostravam o que estava acontecendo nas suas vidas, constituindo força que elas levavam em busca da justiça e da verdade. Essas obras podiam quebrar o silêncio imposto pela situação vivida no país. Hoje, é testemunho vivo e contrinuição para a memória e história chilena.

As mulheres mandavam suas arpilleras para o exterior afim de comunicar o que estava ocorrendo no país. O governo do Chile quis de todas as formas descobrir quem estava sendo antichilena. Uma mulher chamada Chinda Perez, foi processada por enviar as arpilleras para a Suíça.

O que me chama atenção é que essa história foi registrada pela sensibilidade das mulheres em meio do horror e das atrocidades em que estavam vivenciando. Essa foi sua luta!

" Não ficaremos de mãos cruzadas diante de tanta repressão e miséria. Levaram nossos maridos, filhos e líderes. Porém, enquanto há vida há esperança, e expressamos isto em nossas ações" (testemunho dado por um grupo de base em 1987)





Essa impactante arpillera mostra pessoas sendo torturadas. Descreve graficamente a experiência de tortura testemunhadas por sobreviventes entrevistados por Violeta Morales durante a busca pelo irmão desaparecido, Newton. Mostra pessoas desumanizadas, sem traços individuais, passando por uma experiência coletiva e não pessoal. Ressalta-se a determinação da artesã em retratar esta experiência desumana e deixar um testemunho indelével.
Bibliografia:

Arpilleras da resistência política chilena/ curadoria Roberta Bacic; apresentação Marcelo Mattos Araújo.- São Paulo, 2011.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Museus e Comunidade 1

Texto: Museus e Comunidades no Brasil, realidades e perspectivas. I Encontro Nacional do ICOM - Brasil.
Em vermelho o texto. Em azul meus comentários bem particulares.


1. Os museus são espaços para as manifestações culturais, que reforçam a identidade das comunidades locais, tornando-se pontos de referência regional;


Sou assídua frequentadora de museus! Nunca visitei um museu em que a comunidade fizesse parte da concepção de um museu, ou a comunidade opinasse na expografia, enfim... Participei de um congresso no Chile, que chama Museus, Patrimonio e Educação, houve apenas um caso de um museu que a comunidade indígena local decidisse como seria apresentado suas tradições em um espaço museológico.

2. Os museus possibilitam o fomento e a difusão do conhecimento científico e empírico da realidade cultural local;

3. Os museus tem uma função sócio-educativa;

4. Os museus são agentes catalisadores e socializadores do conhecimento, com espaço referenciais da memória dos grupos, a partir da pluralidade cultural;

5. Os museus são incentivadores da preservação da identidade regional, levando a reflexão sobre a realidade sócio-cultural local, e à sua ressonância a nível nacional e internacional;

6. Preservação e conhecimento do Patrimônio como base da identidade das comunidades e de seu processo de desenvolvimento;

7.  A ação museológica transforma o Patrimônio em Herança Cultural;

8. A implementação dos processos museológicos deve reconhecer as diferentes comunidades a que se dirigem, procurando adequar as estratégias de ação e os procedimentos metodológicos às pecularidades dos diferentes grupos sociais;

9. A ação museológica deve garantir a participação das comunidades envolvidas em todas as etapas do processo, considerando-se que a Museologia permite a transferência de seus conhecimentos específicos, de seus métodos e técnicas de atuação a grupos "não especializados";

10. A formação de pessoal de museus deve considerar as novas demandas e necessidades das comunidades, buscando a preparação de profissionais criticos e capazes de atuar como mediadores na relaçõa entre a Preservação do Patrimonio e o Desenvolvimento Comunitário;

11. Como "espaços de memória", os museus podem ser os locais onde o "passado" e a "história" funcionem como suporte para o debate das questões cruciais das comunidades, instrumentalizando-as para o exercício de senso crítico;

12. Qualquer ação ou processo museológico deve partir de um profundo conhecimento das comunidades a que se dirige;

13. Os museus devem buscar o confronto das diferentes versões e possibilidades de interpretação;

14. Os museus tradicionalmente tem sido espaços de valorização da cultura dos grupos dominantes, de homogeineização das diferenças e de imposição de uma única visão do mundo. A dessacralização dos museus é o primeiro passo para garantir o crescimento sócio-político e cultural, multiplicando as visões do e estimulando o espírito crítico dos indivíduos e das comunidades.

Viva lo pueblo americano

E eu amo a América: Viva la América!!! Selecionei algumas músicas como  "entrada" do cardápio latino americano.

Endereço: http://www.youtube.com/playlist?list=PL3D181D66CAA38B1D&feature=viewall

Antes havia pensado em um caminho para apresentar as músicas, a ideia era do Cone Sul ao México, mas quando estava selecionando as músicas, achei melhor deixar as mais legais para o começo. Na minha opinião as mais legais são as cubanas, em termos musicais (acho que eles são os mais "requintados"), políticos e poéticos... Sei que isso é bastante particular, na verdade, o que mais me encanta em música é quando há a junção dessas três (música boa, política e poesia). Não estou falando de política explícita, como a música Hasta Siempre Comandante Che Guevara, estou falando de atitudes políticas usando a música como meio. Por exemplo a Violeta Parra, que pega a música folclórica do Chile, faz poesia em cima daquilo... É mais ou menos que o Chico Buarque faz nos sambas daqui, ou o Tom Jobim, ou o Dorival Caymmi. Enfim...

Escolhi:

* Cubanos
- Buena Vista Social Club. Jurubeba, se vc gostou assista o filme sobre eles, é do Wim Wenders, mostra muito bem como é Cuba, a situação política e a música (que é o foco do filme).

- Sílvio Rodriguez. Ele é o Chico Buarque de Cuba. Suas canções são poéticas e políticas, pra quem sabe espanhol se emociona. O Chico Buarque regravou um monte de música com o Sílvio Rodriguez e na minha opinião a influência do Sílvio Rodriguez na música do Chico é muito evidente.

- Joseito Fernandez. É um tiozinho que parece o Mazzarope, eu não o conhecia, mas tinha que ter a música mais clássica cubana que é Guantanamera.

* Argentinos
- Astor Piazzola. Soledad é uma música que me fez chorar muitas vezes na vida. É tão linda que nunca encontrei palavras para me exprimir também não encontrei nada igual. Concierto para quinteto é muito bonita e escolhi Balada para un Loco, porque é uma música muito gozada...

-
Gotan Project. Lá em Buenos Aires, percebi que os caras estão curtindo uma coisa mais nova no tango. Eles chamam de eletrotango, misturam músicas eletronicas no tradicional tango. Particularmente, achei que ficou legal. O que vcs acharam?

- Richard Galeano. Não tem nada a ver, ele é frances, mas toca uns tangos também. A música que coloquei ai nem é tango, nem música francesa, mas achei que ela combinava. hahaha

- Mercedes Sosa. Acho que é a cantora mais conhecida da Argentina né? Ela canta muita coisa da Violeta Parra. Vi o fiilme sobre Violeta Parra e ela disse que ninguém consegue cantar as canções dela, porque tem que ser muito triste. Acho que a Mercedes Sosa interpreta muito bem as músicas da Violeta.

- Soledad Villamil. Vocês já assistiram "O segredo de seus olhos?" Ela é atriz desse filme. Muito boa, muito linda, muito performática (?), canta muito bem... Nossa, apaixonante. A música que selecionei é da Violeta Parra: Maldigo del alto cielo (vale a pena ver o vídeo). Essa música é muito forte e triste, a Violeta Parra fez um pouco antes de se matar por conta de algumas frustrações na vida e principalmente um amor que terminou.

- Violeta Parra. A putz. Não é só porque fui pro Chile recentemente, mas to na fase de Violeta Parra, viu?! Fico pensando como falta uma MULHER como ela agora. Hoje em dias as cantoras e compositoras, dormiram no balanço do trêm, só reproduzem, parece que só cantam por vaidade. Fora que a Violeta Parra é uma artista completa, como me disse a Marina, Violeta tinha exalava arte, precisava se expressar, além de cantora ela é artista plástica, bordava e era poetisa etc. etc. etc.

- Lila Downs. Essa é uma artista mexica. Cantou para a trilha sonora do filme Frida. Igual ao que eu penso da Violeta Parra, a Lila Downs fez da música uma forma de mostrar a cultura mexicana para o mundo. As roupas dela são lindas, oóhh, como queria aqueles vestidos.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CRIANDO EM VEZ DE IMITANDO OU REPRODUZINDO J.A. GAIARSA

A pergunta óbvia é: mas será dada ao homem tal mutabilidade? Temos a possibilidade, no corpo, no cérebro, na consciência, de mudar sempre? Temos sugerido várias vezes que sim, mas só ao falar na dança de Shiva apresentaremos dados de fisiologia pelos quais se prova que nós somos... criação contínua, querendo ou sem querer, sabendo ou sem saber.
Os iluminados estão certos: a luz está sempre aí. A questão é ser capaz de vê-la, abrir os olhos. Antes da demonstração definitiva, que está no final do livro, apresentaremos outras provas sugestivas do mesmo fato.
Voltemos ao carrapato e a tudo o que ele representa da humanidade. Até hoje, a maior parte das pessoas comporta-se ou existe como os carrapatos, em uma vida operosa, simplória, monótona, quase sem prazer nem gosto.
Além disso, a história do carrapato se repete em todos os seres vivos - a história de um "mundo próprio" bem pequeno dentro de um mundo bem grande e muito desconhecido.
Não parece, mas dizer isso equivale a afirmar: as pessoas vivem assustadas e encolhidas diante de um grande mundo cheio de surpresas e - conforme a visão da família - muito mais cheio de ameaças do que de promessas.
Todos os "nãos" da infância são transformados em fantasmas e perigos, a maior parte deles imaginária. Os perigos reais são bem diferentes dos temidos por mamãe - que pouco sabia do mundo.
Nesse contexto, lembrando mais um exemplo de vida pobre, declaro aqui minha velha simpatia e minha compaixão pela vaca e seus parentes, cuja vida consiste em ruminar e pouco mais! Dá para imaginar? Isso é vida?
Essa, mais do que a de um pobre ruminante, parece vida de um filósofo... Sem contar que vivemos "ruminando" quase sempre os mesmos pensamentos - você já reparou?
Cada macaco em seu galho - menos nós!
Façamos um vôo rasante sobre essa história dos "mundos próprios", e dos poucos movimentos que ele exige e limita, até desembocar na briga de casal.
Comecemos com o tigre - realidade e símbolo mais alto da competência motora dos seres vivos.
Você sabe, cientistas contam todas as coisas. Vivem contando para saber quanto se repetem, e tudo o que não se repete é excluído da contagem...
Em média, nos dizem eles - que contaram! -, um tigre é bem-sucedido na caçada a cada dez tentativas! Desilusão, não é? Aquela máquina! É porque as maquininhas que ele caça são tão ou mais espertas e velozes do que ele! Velhice de tigre é triste!
Quando um tigre ataca gente, é porque ele não conseguiu nada de melhor! (Os grandes felinos não gostam de nosso cheiro. No monstruoso circo romano esses felinos precisavam estar esfomeados e bem treinados para comer gente na arena, você sabia?)
O que há de errado com os movimentos do tigre?
São sempre movimentos de tigre - e nunca ou outra coisa.
Um tigre jamais conseguiria - jamais pensaria - imitar um lobo, nem mesmo um leão, e se um dia ele tentasse imitar um rato toda a comunidade dos tigres o consideraria uma bicha!
Esse o destino, a riqueza e as limitações de todos os seres vivos, cada um ótimo na sua espécie, nenhum deles capaz de transcender, isto é, de alcançar um tipo de movimento não determinado - e não limitado - pelas suas necessidades de sobrevivência, inscritas em sua estrutura biomecânica e em suas necessidades metabólicas.
Seus circuitos nervosos e seu desempenho real se mantêm constantes desde a maturidade do animal até sua morte, antes perdendo do que melhorando em eficácia com o correr dos anos.
Só ao homem é dado aprender a vida toda. É dado, isto é, é possível; se você aproveita ou não, a escolha é sua (e das circunstâncias de sua vida).
Repito agora a pergunta mais pertinente no momento: a cada dia aprendemos mais como são delicados, numerosos e precisos os sentidos dos animais; no entanto, toda essa sensibilidade refinada converge ou se afunila em um número limitado de respostas ou comportamentos.
Toda percepção não ligada a comportamentos vitais não é percebida, é como se não existisse... Podemos por isso dizer que o mundo próprio de cada animal está muito longe de ser A Realidade, limitando-se a muito pouco dessa mesma religião.
Os animais poderiam perceber muito mais do que percebem (têm sensibilidade de sobra para isso), brincar com coisas inúteis, encantar-se com as belezas naturais, inventar novos modos de convivência - como nós fizemos e fazemos (e como os filhotes talvez façam quando brincam).
Por que o homem é diferente, por que nosso mundo próprio é muito maior?
Porque nós podemos imitar quase tudo e ao imitar nos é dado compreender "por dentro", em nós mesmos, em nosso íntimo, todas as coisas que imitamos.
Podemos literalmente "construí-las" em nós. O microcosmo pode conter toda a realidade se você estiver interessado em "ampliar a percepção" ou em "ampliar a consciência", ambas visando alterações de motricidade, da capacidade de fazer, de alterar o mundo. E vice-versa: alterando o mundo, será preciso alterar a adaptação, achar novas formas de existir, dizem todos; de fazer, prefiro dizer.
Os escolásticos declaravam: "Pela inteligência, o homem pode se fazer todas as coisas". É isso que afirmamos, mas corrigindo: podemos nos fazer todas as coisas sim, mas por imitação e até bem concreta; ficamos bem parecidos com o que imitamos - somos atores natos, atores "por natureza". Podemos assumir qualquer forma!
Podemos dizer que o homem é o mais livre entre os animais por sua versatilidade motora inigualável - por sua determinação radical.
Mas intuitivamente você sabe disso há muito tempo, só que não juntou fatos bem conhecidos para ver a resultante do conjunto.
Vou ser breve numa descrição que poderia encher quantas páginas eu quisesse.
Considere todas as artes circenses: equilibrismo na corda bamba, em bicicletas de uma roda, com pilhas de objetos sobre o equilibrista, trapézio, ginástica, malabarismo, mágicas, atirar facas e/ou machados, adestramento de animais variados e quanto mais você lembrar.
Depois vá a um teatro de danças variadas, eruditas e folclóricas - dezenas, centenas, milhares? A cada três meses surgem e se espalham pelo mundo um novo ritmo e novos movimentos.
Considere os esportes - saltos variadíssimos, corridas, arremessos, ginástica olímpica, esquis, surfe, vôo livre, patinação, skate, ciclismo, automobilismo, esportes náuticos, alpinismo.
Movimentos destinados a ampliar a consciência e o controle motor: artes marciais, os mil exercícios e posturas de ioga, o tai-chi-chuan e quanto mais.
Cada uma das categorias denominadas envolve dezenas ou centenas de movimentos diferentes.
Autor: J.A. Gaiarsa
Livro: Lições de Amor "Briga de Casal"
Editora Gente

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Música na modernidade (1 parte: Debussy)

Nesse momento vou apenas falar de Debussy e a modernidade.

Estudando Oswáld de Andrade, nova exposição do Museu da Língua Portuguesa, fiquei com vontade de estudar as vanguardas artísticas. Nas outras linguagens da arte como as artes visuais e a literatura, esse assunto é muito pensado, discutido, posto em questão. Vale a pena ver Meia Noite em Paris do Woody Allen. Mas e a música? Fiquei impressionada quando descobri que Debussy inaugurou também uma forma de repensar o aspecto sonoro na modernidade. Para mim, era apenas o Schönberg, com seu dodecafonismo, seu novo tratado de Harmonia.

Na minha cabeça, Scöenberg dialogava muito bem com o contexto da época, mas não sabia direito como Debussy entra nessa jogada. Fui me interessar por esse assunto, quando vi a frase do Oswáld (que aparecerá na exposição): Eu menti!!

"Eu menti!" é uma frase proclamada por Oswáld ao Mário de Andrade. Sua cara de pau, foi tanta, que um dia, não me lembro o contexto que estavam, Oswáld de Andrade parou toda a discussão para dizer que o Mário de Andrade (que entende de música) disse que Heitor Villa Lobos era bem melhor que Debussy.

Depois foram perguntar ao Mário se ele disse isso e evidentemente que Mário negou, mas foi perguntar ao Oswáld o porquê ele falou isso. Sabe o que Oswáld respondeu? "Eu menti".

É muito petulante esse Oswáld.

Mas eu não vim aqui falar dele, mesmo porque eu nada tenho a dizer de sua obra, só dizer que não gosto! Vim falar de Debussy baseada em um Podcast da OSESP que ouvi essa tarde sobre Debussy e o nascimento da modernidade musical, feito por Vladimir Safatle:



Segundo Satatle, se aceitarmos a divisão musical modernista seria assim: radicalização das estratégias seriais por Schönberg (mais tarde veremos em compositores da segunda metade do século XX, como Boulez e Stockhausen, entre outros) e a estilização da paródia e da ironia (em compositores como Stravinsky, John Adams e Thomas Adés) e veremos que Debussy aparece em terceira via.

"Se quisermos entender a verdadeira contribuição de Debussy para a modernidade musical, devemos estar atentos à maneira como ele reconstrói a noção de tempo. Noção fundamental, já que a música é, de todas as artes, aquela que mais claramente impõe através da sua forma, um modo de organização da experiência da temporalidade. Ela é, no fundo, um modo de decisão sobre como passa o tempo."

Música na modernidade era formas sonoras em movimento (também não tinha entendido essa frase, mas vai ficar clara adiante). O movimento = passagem, transformação, continuidade, INCOMPLETUDE. Ou seja, algo que não se move.

O sistema tonal é uma forma de organizar o movimento. Através do sistema tonal, aprendemos a esperar uma resposta quando ouvimos uma frase, a esperar uma distensão quando ouvimos uma tensão, um consequente quando ouvimos um ascendente. Isso demonstra como modos de sucessão e continuidade se naturalizam no desenvolvimento de um motivo musical.

Debussy libera o tempo musical de sua submissão à narrativa tonal. Tem dupla temporalidade. Duplicidade nascida da radicalização da tensão, presente na obra dele. Ou seja, você espera algo da música, mas ela não resolve. Ou seja, tem uma temporalidade do sistema tonal, mas ele desarticula as expectativas do ouvinte, ele usa a liberdade das regras de harmonia.

"Pois não há propriamente em Debussy o abandono completo da tonalidade (ao contrário de Schöenberg, por exemplo), mas uma 'indiferença' sintática quanto à imposição de suas regras"


Prelúdio Para a Tarde de um Fauno, 1894

http://www.youtube.com/watch?v=FrBGpEBGLyU&feature=related (aqui está a musica e um vídeo lindo)



- A peça impressionou por seu modelo sem resoluçao;

- A flauta do Fauno instaurou uma nova respiração na arte musical;

- Poema de Mallarmé, serviu de inspiração para a música de Debussy:

Stéphane Mallarmé
A tarde de um fauno
(Écloga 1865-1875)

O fauno:

Estas ninfas quero eu perpetuar.
Tão puro,
o seu claro rubor, que volteia no duro ar
pesando a sopor.
Foi um sonho o que amei?
Massa de velha noite, essa dúvida,sei,
muito ramo subtil estendendo,
provava
meu engano infeliz, que enganado
tomava
por triunfo,afinal um pecado de rosas.
Reflitamos.


Quem sabe as mulheres que glosas
são configurações de anseios que possuis?
Repara na ilusão que emana dos azuis
e frios olhos,fonte em pranto, da mais
casta
Suspiros, toda, a outra - alegas que contrasta,
como brisa diurna e tépida que passa?
Mas não! Neste desmaio imóvel, lasso - ameaça
a todo matinal frescor de suave fama
se uma fonte murmura, esta flauta a derrama
no vizinho silvedo, irrigando-o de acordes;
nenhum vento aqui faz, senão os sopros concordes desta avena que o som em chuva árida espalha,
e senão no horizonte, em sua calma sem falha,
o sereno bafor da pura inspiração,
visível, regressando ao céu, por ascensão.


Ó plagas sículas e calmas, da lagoa,
que saqueadas tem minha vaidade, à toa,
e tácita- no amor das flores destes páramos­ –DIZEI
"que aqui me achava em busca destes cálamos sonoros
quando além, por entre as brandas linhas
de ouro glauco, a fulgir nas fontes e nas vinhas,
eis ondeia uma alvura. animal em repouso;
mas que logo também, ao lento e langoroso
prelúdio linear da avena de cinabre
vôo, de cisnes não, de náiadas se abre."



A hora fulva que arde inerte não revela
a astúcia, de intenções de aliciação tão bela.
Sinto-me despertar sob um fervor de antanho,
onda antiga de luz envolvendo-me em banho,
eu, lírio, um dentre vós segundo a ingenuidade!


Mais que o nada tão doce, essa espontaneidade,
beijo, sussurro suave e soma de perfídia,
meu corpo, sem mais prova, atesta ainda, insídia,
uma oculta mordida augusta, de alto dente;
mas, vede, arcano tal tomou por confidente
o gêmeo junco, par que sob o azul se soa;
que recebendo em si o sôpro, logo entoa
e sonha, em solo longo e leve, que a beleza
em derredor está a mudar-se com presteza
dentro na confusão de si mesma e do canto;
e nas modulações altas de amor,entanto
evanescendo esvai-se apaga-se a teoria
clara, de dorsos e de flancos; ó magia
de uma sonora e vã monótona mesmice!



Frauta maligna, órgão de fugas, sem ledice,
vai, fístula, florir no lago e ali me aguarda.
Eu, cheio de rumor altivo, já me
tarda
falar de deusas; por idólatras pinturas,
de suas sombras irei tomar-lhes as cinturas.
Assim, quando ao racimo extraio-lhe a substância /sorvo
e contra a mágoa apuro a minha vigilância,
e rindo soergo no ar o já vazio cacho
e, na pele de luz assoprando, eu me
acho
-ébrio- capaz de então a tarde toda o olhar.


Outras RECORDAÇÕES, vamos, ninfas, lembrar
“Meus olhos entre o junco... além uma
figura
imortal que se banha e a cálida brancura
luminosa do corpo em onda leve imerge.
Sôbre o áureo esplendor dos cabelos converge
um claror e um fremir de fulva
pedraria!
Corro; mas a meus pés, jungidas na agonia
do langor
deste mal de serem dois em um,
vejo duas dormindo, em abraço
comum.
Como estavam tomei e trouxe a esta eminência
desamada da sombra e dela sem frequência;
aqui se esvai ao sol das rosas o perfume;
mas para o nosso embate a força aqui me assume."

Ó furor virginal, eu te adoro, ó concisa
fúria de corpo nu, fardo nu que desliza
fugindo ao lábio ardente e a refulgir livores
de ampla trepidação da carne em seus pavores!
E isso, da inumana à tímida que vê
já perdida a inocência e dos olhos
revê
uma lágrima louca ou um tanto menos triste.
"Meu crime foi querer, na fôrça que me assiste,
apartar dividir um tufo desgrenhado
de beijos e de amor, dos deuses bem guardado.
Na hora em que esconder eu ia o riso ardente
na feliz maciez de urna, só - e contente
procuro no condor de pluma em que
se agita
o sabor da emoção que vívida palpita
na sua ingênua irmã, pequena, que não cora
eis de meus braços que se esquecem foge fora
tal ingrata cruel, que na impiedade esfria
a estuosa ebriez em que me consumia."


Foi pena. Irei buscar alhures a
esperança
de em meus chavelhos ver, enastrada, uma trança.
Bem sabes, ó paixão, que rubras mui vermelhas
cada cereja abriu seu murmurar de abelhas.
E o nosso sangue vai, enviado em seu ensejo, percorrendo o pendor eterno do desejo.
Na hora em que de ouro e cinza este
bosque
se pinta logo em festa se exalta a folharia extinta.
Ó Etna, é junto a ti! Vênus vem pelos ares.
Leve na lava pousa ingênuos colcanhares
enquanto sonolento as chamas tens em
calma.
Tenho pois a rainha!


Ó dura pena...
A alma
de palavras vazia e o corpo em letargia
sucumbem afinal ao fero meio-dia.
Cumpre dormir assim, no olvido, de mansinho,
deitado nesta areia.
Ó que delicia ao vinho
a boca oferecer e a seu astro eficaz!


Par, adeus: Quero ver como sua sombra se faz.

(fonte: http://www.letras.ufmg.br/lourenco/banco/FR02.html )


- No poema há apenas o tempo estático do desejo do fauno pelas ninfas: "Essas ninfas, eu as quero perpetuar".

- Da mesma forma Debussy pensou numa música, de desenvolvimento sem resolução, onde a flauta do Fauno ressoa abrindo um tempo de repetição (como o próprio tempo do desejo), que permite a orquestra operar uma variação incessante dos modos de acompanhamento.

- Debussy usa "harmonia não funcional". Harmonia é uma maneira de organizar o movimento na música. Mas Debussy usa a harmonia de uma forma tal que os polos de tensão e distensão se quebram, dando a impressão da música não se resolver, de não andar...

- Joux e La Mer também: ao ouvir tais peças seus ouvintes contemporâneos (de Debussy apenas?) sentem-se desnorteados por não saber o que esperar, o que rememorar, para que direção caminhar.

Em Debussy notamos elementos visuais na música. Na verdade, eu identifico isso em muitos compositores de diversos períodos. O exemplo que Vladimir Safatle dá é a peça "Passos sobre a neve", segundo ele podemos visualizar uma paisagem triste e glacial.

“Há algumas décadas, Boulez afirmava que, na verdade, o modernismo estético tinha sido inventado na França por Mallarmé, Cézanne e Debussy. Para além da querela geográfica bizantina, há um conteúdo de verdade nessa proposição. Ela nos lembra como conhecemos, ao menos, três formas de esgotar algo: fornecendo os princípios gerais de uma nova ordem (Schönberg), operando um retorno paradoxal à origem, onde a ironia e a paródia serão dispositivos centrais (Stravinsky), e conservando a linguagem atual de forma tal que ela confessará sua impossibilidade de desempenhar suas antigas funções e se abrirá para a problematização de seus elementos fundamentais. Essa foi a via aberta por Debussy.”